Ecologia, estado e socialismo: existe futuro quando o consumismo é sagrado?

“É preciso ver no capitalismo uma religião” W. Benjamin

Podemos afirmar que praticamente todos os intelectuais socialistas eram entusiastas da Revolução Industrial. Mas o modelo estalinista, vendido como a utopia socialista, com os seus implacáveis planos quinquenais significou a destruição dos mais significativos santuários de biodiversidade e numa lógica produtivista levou à contaminação de águas e solos com implicações gravíssimas em termos de saúde humana, que duram até aos nossos dias. Portanto a omnipresença do Estado e duma economia planificada conduziu igualmente a problemas de ausência de sustentabilidade ambiental dignos do mais execrável modelo de capitalismo selvagem. Basta ler o livro Chernobyl do prémio Nobel Svetlana Aleksievitch para ver como a vida humana foi absolutamente desprezada em nome dum monopartidarismo caduco, ilustrado pelas centenas de operários de fato macaco e umas simples luvas a procurarem domar o monstro dum reator nuclear, com a consequência das suas células terem implodido em poucos dias. Mas o curioso é que foi a economia planificada assente na produção de aço que permitiu um I Plano Quinquenal com uma média de crescimento de 13,2% ao ano, enquanto o II Plano atingiu a impressionante marca de 16,1%. Até a década de 1950, o crescimento dos países ditos socialistas era superior ao dos países capitalistas. O analfabetismo foi erradicado nesta década quando 30 anos antes era superior a 50%. E não, o domínio cego do Estado não é apenas do passado: basta ver a China, o sistema Capitalista de Estado, uma economia planificada onde o Estado opera os negócios principais com a finalidade de acumulação de capital.

Marx, por sua vez, como já foi destacado por vários autores, especialmente D. Bensaid, não foi um arauto cego da perspetiva do progresso linear no capitalismo, e até o próprio Engels mencionava a questão da “vingança da natureza” diante do contraditório progresso da técnica e da produção no capitalismo (no livro “O Papel do Trabalho”). O próprio Lenine impulsionou significativas ações ambientalistas. Em 1924 foi criada a Sociedade de Conservacionismo de Toda a Rússia. E várias estações ecológicas foram criadas, conhecidas como zapovedniki, em regiões com natureza virgem, e criados aí importantes meios para a pesquisa científica. Chegou a haver 33 delas, abarcando 2,7 milhões de hectares. E sim, os conceitos de ecossistema e interações entre componentes bióticos e abióticos, ao fim ao cabo a Ciência Ecológica, foi criada pelos cientistas soviéticos. É curioso que no Ocidente alguns dos nomes mais destacados da Ecologia (e por onde se estudava em Portugal e em todo o Ocidente na década de 70), como Odum e Margalef, tinham algo em comum: sabiam russo! E foram aí buscar autores soviéticos como Sukachev e Vernadsky e as noções, agora tão comuns de fluxos energéticos nas cadeias alimentares e ciclos biogeoquímicos. É claro que esse conhecimento científico e preocupação pelo ambiente e o extraordinário trabalho da conservação genética não conduziram mesmo a nada de bom esses cientistas dado que aqueles que os enviaram para os gulags é que tinham a verdade absoluta…

Em face destas experiências históricas surge uma multitude de alternativas, entre os quais o movimento ecologista, mais ou menos politizado em diversos países. Estes movimentos têm sido contestados por terem uma visão limitada da integração harmoniosa do desenvolvimento social e económico com o respeito pela natureza. A sustentabilidade tem de ser encarada como um poliedro de várias faces: sustentabilidade ecológica, sim, mas também social, económica, espacial (urbano-rural) e cultural.

Eis que surgem assim movimentos designados por ecossocialismo supostamente criados pelo brasileiro Michael Löwy (ou pelo menos ele disso se arroga…), ancorado na iniciativa do Fórum Social Mundial de Belém, que ele apresenta como “crítica à ecologia não socialista, à ecologia capitalista ou reformista, que considera possível reformar o capitalismo, desenvolver um capitalismo mais verde, mais respeitoso ao meio ambiente”. Löwy critica os movimentos ambientalistas, o capitalismo verde e o socialismo não ecológico que não se relaciona com o processo da luta de classes e que não coloca a questão da propriedade dos meios de produção. O Manifesto Ecossocialista Internacional surgiu nesse Forum e aponta para um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, liberta das malhas do lucro imediato, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.

Mas temos de reconhecer que a sustentabilidade ambiental tem andado nas mãos de grupos ecologistas com uns laivos de preocupações sociais. É preciso ir mais além, dado que para evitar o ecossuicídio planetário não basta transformar o aparato produtivo e os modelos de propriedade, é necessário transformar também o padrão de consumo e de todo o modo de vida em torno do consumo gerado pelo capitalismo que se caracteriza pela produção maciça de objetos artificiais, inúteis e perigosos. Em vez de indicadores como PIB, défices de balanças de pagamentos, % cobertura de importações, etc., em que assenta a base da nossa discussão política diária, devemos pugnar por indicadores sociais e ambientais, como os Índices de Pobreza Humana e Índice de Desenvolvimento Humano (cito estes porque foram desenvolvidos pelo PNUD), que envolvem renda, educação, longevidade, taxa de analfabetismo, acesso a serviços de saúde, desnutrição infantil, e água e recursos naturais de qualidade. Mas quem utiliza estes índices ou osde GINI (grau de concentração de recursos num determinado grupo) e tantos outros que os sociólogos e ambientalistas têm produzido em catadupa? Entre nós, só a Direção Geral de Ambiente publicou em 2000 um sistema de indicadores de desenvolvimento sustentável: nada menos que uma bateria de 132 indicadores para todos os gostos, dos quais 72 ambientais, 29 económicos, 22 sociais e 9 institucionais, remetidos para os relatórios costumeiros.

Onde está o fulcro do problema? Onde se deve atuar? No consumidor! O que deitou abaixo o muro de Berlim não foi o anseio pela liberdade, mas pelo consumo. Lembram-se das autoridades alemãs ocidentais a oferecerem 50 marcos aos berlinenses de leste para compras em hipermercados, prontamente inundados por gente sequiosa dos bens de consumo?

Henrique Cortez que introduziu a definição do “consumo ético”, reconhece que o nosso modelo económico é baseado em produção e consumo infinitos. Aponta que o consumo é um ato político e econômico e, neste sentido, deve ser ético, responsável e sustentável, mas realça que o consumo só é ético se for sustentável e isto só ocorrerá com uma gigantesca redução do consumo global.

Na verdade, é mesmo necessária uma gigantesca redução de consumo. A manutenção da intensidade produtiva virada para satisfazer necessidades virtuais e a substituição duns produtos por outros mantêm inalteráveis as desigualdades sociais e os impactes ambientais. Como o espaço é escasso e a minha área são os recursos hídricos, vou só dar como exemplo a substituição da energia derivada dos combustíveis fósseis pela produzida por fontes renováveis: A hidroeletricidade sempre foi considerada uma energia limpa, mas os impactes ambientais são tremendos destacando-se a fragmentação de habitats, a degradação da qualidade da água e a submersão das melhores áreas agrícolas. Note-se que a construção de barragens no Alto Minho foi uma das consequências da emigração nos anos 60 do século passado.: Isto é ilustrado pelas recentes albufeiras do Baixo Sabor e Foz Tua que se estendem por cerca de 50 kms… E sempre se considerou que as emissões de gases de efeito de estufa produzidos por estes sistemas (GEEs) eram zero, permitindo esta “energia limpa” impedir a emissão de quantidades astronómicas de combustíveis fósseis. Não obstante, na última década, numerosos estudos (pouco divulgados!) evidenciaram que as albufeiras eutrofizadas emitem tanto como uma central térmica de médias dimensões (emitem menos CO2, é verdade, mas muito mais metano CH4, com uma eficiência de absorção de infravermelhos dezenas de vezes superior…). E poderíamos apresentar muitos exemplos de alternativas aos produtos convencionais, com a manutenção inalterável do padrão consumista alavancado pelo capitalismo mais sórdido. Desde os biocombustíveis, responsáveis por monoculturas imensas, até às transações no mercado do carbono, passando pelos organismos geneticamente modificados…apenas alguns exemplos…

Por onde começar, para uma inversão de valores da sociedade atual, que libertem das garras do capitalismo e do equilíbrio ambiental ? Henrique Cortez, também apontado como ecossocialista considera que a primeira mudança será, evidentemente, na educação, porque ninguém nasce intolerante, preconceituoso, racista, homofóbico, supremacista, antissemita, islamofóbico e… muito menos …consumista….

 

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