É tempo de fazer trabalho de base

É com a frase “trabalho de base necessita-se às toneladas” que Rui Abreu, a partir das recentes eleições brasileiras, termina um dos seus artigos publicado no “site” Via Esquerda que foi censurado pelo Facebook. Desconhece-se qual a origem do boicote, mas alerta para os perigos e limitações das redes sociais.

No artigo reflete-se sobre a forma como o Facebook “que se apresentava como um instrumento de libertação”, acaba por se estar a revelar um instrumento “de opressão sem precedência no alcance.” É procurada resposta a este e outros problemas que se colocam à esquerda no Brasil, mas também em Portugal a na Europa.

“O PT começa a sua queda quando se desliga dos movimentos sociais e do povo. Começou a ser um partido igual aos outros, que só dialogava com a base em tempo de campanha ou através da popularidade de Lula, retirando paulatinamente espaço político às bases, substituindo-as pelos representantes dos grandes interesses económicos.

A tendência natural da esquerda é tentar recuperar o tempo perdido na internet. Embora seja necessário manter presença e uso da net, parece ligeiramente ingénuo pensar a reversão no quadro de influência da esfera virtual. Seria como conseguir impedir o golpe de 2016, no auge de influência da Globo na criação da imagem anti PT, através da TV. Não existe possibilidade de a esquerda destronar o poder político através dos meios da comunicação. Já na cativação das pessoas para a participação dos processos políticos, o espaço é quase exclusivo da esquerda e é o seu caminho natural: promover a participação para criar uma fase política pós comunicação.

Viva la Libertà”, uma comédia de Roberto Andó, denuncia o poder da comunicação televisiva, superficial e populista

Urge regressar às origens, no Brasil e no Mundo. Só uma política presente na base, no corpo a corpo, pode competir com estes novos instrumentos de alienação. A TV representava um papel importante na consolidação da ideologia dominante, mas era só pós laboral ou estudo, 4 a 5 horas por dia. Hoje, a trela tecnológica/ideológica é bem mais presente na vida das pessoas, não deixando tempo nem espaço mental para interpretações divergentes. Recuperar princípios e práticas de participação que envolva militâncias e ativistas, que ecoe os seus anseios e lutas é necessário para renovar os espaços de interpretação política. Só a envolvência das pessoas na participação nas decisões políticas tem a capacidade de destronar estes meios na compreensão da realidade. Trabalho de base necessita-se… às toneladas.”

Tal como no Brasil, também em Portugal e na Europa a “nova esquerda” mostra tendência para aderir aos novos fenómenos de comunicação facilitados pelas televisões e pelas redes sociais que permitem fazer toda a intervenção, ou grande parte dela, a partir destes meios de comunicação, de costas voltadas para o trabalho de base.

Nessa forma de comunicação baseia-se o filme “Viva la Libertà” de Roberto Andó. É comédia que denuncia o poder da comunicação televisiva, superficial, populista, em que o importante das mensagens não é o seu conteúdo político que se adapta às necessidades eleitorais, nem a capacidade de liderança de quem as transmite, geralmente inconsequente.

Há o perigo nas “novas esquerdas” de serem desenvolvidas formas de comunicação semelhantes às descritas no filme, com mensagens transmitidas através das televisões e das redes sociais dirigidas ao grande público em aparente proximidade com ele, procurando impor caminho de pensamento único que alimenta um sistema de centralismo burocrático, desligado das bases e que não promove nem valoriza o debate político, a democracia e a participação.

Estas “novas esquerdas” tendem a seguir a “espuma dos dias” em vez de apresentar propostas sustentadas em visão estratégica de desenvolvimento social e económico justo, visando a promoção dos cidadãos mais desfavorecidos.

Esta forma de actuar, não sendo inclusiva, corre o perigo de cair na comunicação eleitoralista, favorece o caminho dos populismos, não serve um projecto verdadeiramente de esquerda e socialista, transformador da sociedade.

 

 

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