E se fossemos ecologicamente consequentes no capítulo da greve dos motoristas de matérias perigosas?

O conflito laboral entre motoristas de matérias perigosas e a ANTRAM, que os sindicatos independentes (SNMMP e SIMM) protagonizaram, e que nos últimos meses despertaram o país para a força destes trabalhadores, fundamentalmente no que toca ao abastecimento de combustíveis, nomeadamente dos derivados do petróleo de que está dependente, como gasóleo e gasolina, voltou a colocar o país em estado de alerta com a greve iniciada no dia 12 de agosto e antecedida de toda uma campanha previamente orquestrada, para tentar desacreditar as reivindicações contratuais e salariais, e limitar o próprio direito à greve, através da declaração de “crise energética” e consequentemente, imposição de serviços mínimos que em alguns casos, chegaram a 100% no âmbito de uma Rede Estratégica de Postos de Abastecimento.

As medidas de antecipação do governo, recheadas de intimidação, em véspera de eleições, apoiadas numa intervenção musculada das forças de segurança “com tolerância zero”, e uma descarada pressão da ANTRAM, cujo porta-voz chegou a admitir, “É muito provável haver violência” (Expresso, 10 de agosto), criaram as condições para o governo justificar logo no primeiro dia de greve a requisição civil parcial, que decretou, ainda que denunciada como não havendo razões plausíveis que não fossem os efeitos eleitorais que este conflito laboral poderia e pode influenciar em outubro.

A luta dos motoristas de matérias perigosas, que responderam com o cumprimento de apenas oito horas de trabalho diário, conforme o código do trabalho, pode não se traduzir no imediato, na conquista das suas principais reivindicações. Mas deste braço de ferro com o patronato e o governo que os humilhou, viram reafirmada a força da sua profissão, da qual o país está demasiado dependente e se agita sempre que o seu cómodo modo de vida é ameaçado com a falta de combustíveis, ainda mais em período de férias.

Mesmo com a determinação de serviços mínimos a atingirem limites intoleráveis, que a fazerem jurisprudência noutros setores profissionais são ameaças a considerar não só pelos sindicatos independentes. Os portugueses dependentes consumidores, sobretudo da gasolina ou gasóleo, tomaram também as suas medidas preventivas, que acabaram por aliviar nas primeiras horas de greve a tensão nos postos de abastecimento, ainda que, com naturais restrições de racionamento ao mesmo tempo que a FECTRANS afeta à CGTP privilegiava a continuação das negociações com a ANTRAM.

Independentemente do verdadeiro desfecho desta luta que só mesmo as ameaças à lei da greve mobilizou alguma solidariedade com os motoristas de matérias perigosas, os vários setores da economia do país mostraram também as suas fragilidades em corresponderem aos inevitáveis desafios da transição energética, tal é a emergência climática e a consciência de que “Não há planeta B”.

Ainda que o combate às alterações climáticas, seja uma bandeira a que, a generalidade dos partidos não vão deixar de se referir nos seus programas eleitorais. A greve dos “combustíveis”, mais uma vez serviu para testar a nossa dependência e capacidade de “sobrevivência” numa crise de abastecimento de combustíveis fosseis. Em que, nem mesmo o governo passou uma mensagem ecologicamente pedagógica de sensibilização para se responder à falta de combustíveis, com alternativas possíveis no campo da mobilidade, reforçando a disponibilidade e oferta de transportes públicos. O governo privilegiou garantir ao povo fartura de derivados do petróleo sem grandes sacrifícios, num Planeta que exige mudanças de atitude e que numa greve deste setor permitiria tomar consciência das atitudes a alterar.

E se fossemos ecologicamente consequentes no capítulo da greve dos motoristas de matérias perigosas? Podia-se perguntar, quando ouvimos o Secretário-geral da ONU, António Guterres, em várias intervenções, alertar para a grave urgência climática que o mundo enfrenta, com as mudanças climáticas a precipitarem-se demasiado depressa, com todas as suas consequências a exigirem ações urgentes para evitarem uma “catástrofe”.

Se tivermos em linha de conta as preocupações manifestadas por António Guterres, que não sensibilizam negacionistas como, Donald Trump, Xi Jinping, Jair Bolsonaro ou Vladimir Putin, este, mesmo com a Sibéria a arder em julho e igualmente fortes inundações neste extremo oriente russo. As promessas do acordo de Paris, mesmo que sejam plenamente cumpridas, o agravamento de pelo menos mais três graus centígrafos até ao final do século, é mais do que uma previsão científica, o que só pode representar uma “catástrofe” cada vez mais comprovada no Planeta, enquanto resistimos a abdicar do comodismo que as forças da natureza num ápice poem em causa tantas vezes tragicamente.

Talvez por isso, uns conscientes racionamentos de gasolina e gasóleo bem poderiam ser mais coerentes com o entusiasmo que vivemos com o despertar dos jovens estudantes para a causa do clima, em que, saíram e têm saído às ruas no mundo em defesa do planeta, exigindo medidas corajosas e consequentes aos governantes, porque, como gritam, “Não há planeta B”.

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