Desprendimento e determinação

É o espírito do tempo histórico em que vivemos. A análise e a ação política estão dominadas pelo calculismo e pelo medo. É o conforto do conhecido e o medo do desconhecido. A ilusão do controlo. O apego aos cargos políticos.

Há uma ideia a pairar sobre o Bloco de Esquerda, que sugere que se a esquerda não facilitar a vida a um governo do Partido Socialista (PS), provoca uma crise política, realizam-se eleições antecipadas e o PS alcança a maioria absoluta ou outros cenários ainda mais negativos. Portanto, não se deve votar contra o Orçamento de Estado mesmo que este não traga nenhum avanço social de relevo, deve-se viabilizar o governo PS mesmo que este governe no essencial à direita. Na legislatura passada a mesma ideia: não se devia pressionar o PS para a renovação do acordo parlamentar, era importante promover a estabilidade política e a “geringonça”.

Nesta narrativa temerosa desempenha um papel central a ideia que é a esquerda que provoca as crises políticas e as eleições antecipadas. O que é evidentemente incorreto. Por princípio e por regras constitucionais, o ónus da responsabilidade deve ser colocado do lado de quem governa. Quem governa é que tem de se esforçar por fazer aprovar as suas políticas e viabilizar o seu governo. A esquerda é socialista. O PS só não obtém acordo dos partidos da esquerda se não quiser. Tem a “faca e o queijo na mão”.

Tal como na vida de qualquer ser humano, na vida política a capacidade de previsão e controlo que os agentes têm sobre os acontecimentos é mais limitada do que se pensa. As escolhas coletivas que são feitas a cada momento refletem o estado presente da sociedade e do processo histórico. A esquerda deve procurar promover a consciência dos trabalhadores e do povo em geral, agir com determinação, mas não sacrificar convicções e programas políticos para se conquistarem mais alguns cargos políticos.

As transformações sociais e políticas não são resultado de acordos parlamentares ou da luta pelas migalhas orçamentais. O trabalho parlamentar interessa na medida que sirva a construção de uma alternativa social e política. Não interessam mais esmolas para o povo e a manutenção da exploração e da manipulação em benefício de uma minoria, interessa sim um novo projecto de sociedade e economia. Com a determinação no presente que influencia o futuro, é importante aceitar e confiar no curso da história.

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