Descentralização da população jovem

Fora dos grandes centros urbanos há cada vez menos jovens, não por falhas na natalidade, mas pela incapacidade que o interior do país tem em manter as populações mais jovens atraídas às suas terras de origem, ou de atrair pessoas novas para essas zonas.

Porque é que em certas zonas do país a juventude não vê o seu futuro?

Esta é uma questão complexa e que deve ser feita. É relevante porque crescemos num contexto de família e amizades, onde criamos raízes à nossa terra e, contudo, chegada a uma certa idade, queremos estabilidade e independência, mas não vemos na nossa cidade esse lugar onde construir uma vida emancipada!

A solução, para umas pessoas, será simplória: “mudem de cidade”, mas não é a resposta de que precisamos.

Para responder de forma satisfatória, temos que analisar primeiro a raiz do problema. A meu ver, há duas grandes razões (entre outras), que podem justificar a falta de atratividade, para a juventude, de certas zonas descentralizadas do país. Em primeiro lugar, o emprego. Em segundo lugar, e não menos importante, a inclusão social.

A questão do emprego é fácil de identificar, mas difícil de resolver.

Para a juventude com pouca formação técnica, há um horizonte de empregabilidade apertado. Para as pessoas jovens com formação técnica avançada e especializada, já com o Ensino Superior, não há ainda os quadros técnicos capazes de dar emprego a esta mão de obra qualificada, fora dos grandes centros urbanos (e neste sentido, pode haver a necessidade de pessoas formadas e essas mesmas pessoas não quererem viver nessas zonas). E para as pessoas jovens que já têm emprego, na grande maioria dos casos são trabalhos precários e particularmente frágeis.

Os casos de jovens que têm de mudar de emprego de poucos em poucos meses são mais a regra do que a exceção e é ruinoso para a construção de uma vida emancipada.

Por outro lado, a questão da inclusão social é fundamental para uma vivência plena e emancipada. Não basta sentir que podemos ter um bom emprego na nossa “pequena” cidade do interior, porque se não sentirmos que fazemos parte da vida pública, então ficamos impotentes, ou pior, entediad@s.

A atratividade de um concelho passa por se saber que podemos construir a vida que queremos, sem o prejuízo da descriminação nem do preconceito.

Com efeito, qualquer pessoa numa fase inicial da construção da sua vida, pergunta-se sempre, conscientemente ou não, se será aceite onde vive. É fácil de explicar com vários exemplos: Para a juventude afrodescendente, a questão é se há ou não racismo e a mesma questão para os filhos e filhas de quaisquer famílias de naturalidade não-Portuguesa. Outro exemplo, é a pessoa que decide mudar de identidade de género, normalmente sofre descriminação. A questão das famílias homossexuais também deve ser referida, porque apesar de serem legalmente possíveis, têm de passar por muito preconceito em várias zonas do país. Estes e outros exemplos fazem a diferença para a decisão da pessoa.

Não podemos esperar que as pessoas jovens se fixem, sem uma construção que pense em toda a gente, sendo minorias ou não.

Há outros fatores que podem levar a que qualquer pessoa jovem sinta desinteresse em viver numa determinada região, como é o caso da falta de serviços públicos. Porque se crescemos num lugar onde é complicado viajar ou ter assistência médica de qualidade, rapidamente surge o desejo de viver noutro local.

Atrair novas gerações de pessoas com formação do ensino superior para o interior, é apostar, a longo termo, no desenvolvimento do interior.

Não temos de pensar só em “manter” pessoas no interior, mas também torná-lo convidativo a novas gerações vindas de ouros sítios, muitas com formação superior útil para o desenvolvimento local. O interior do país não deve ser estanque, isolado nem desertificado. Deve-se procurar torna-lo convidativo a qualquer pessoa que lá queira viver, e isso passa sempre pelo emprego digno, pelos serviços públicos eficientes e pela igualdade social, sem descriminações, bandeiras que a esquerda terá sempre presentes.

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