Democracia para o interior

Ora vamos lá falar dos passes sociais. A minha opinião. Vale o que vale. Mas é minha.

Sou a favor. Mas sou a favor com reticências. Reticências referentes às injustiças sociais geográficas.

Ou seja. Vou falar como sendo eu “cá de cima”, mesmo tendo dois irmãos que tiveram de descer lá para ” baixo” para o centro da civilização de Lisboa, onde existem comboios, autocarros, barcos, metros, aviões, autoestradas, pontes…enfim, onde existem oportunidades!

Aqui, ou seja, “cá em cima”, ou “cá dentro”, no tal local chamado de “Interior” onde os políticos se deslocam de 4 em 4 anos, ou, vá lá, na melhor das hipóteses, quando há catástrofes que liguem os holofotes mediáticos, onde nos extinguiram freguesias, encerraram serviços como hospitais e escolas, eliminaram linhas da ferrovia, entre tantas e tantas outras injustiças, não temos sequer transportes públicos, quanto mais sonhar com um passe mais económico?

Agora, também não vou dizer que eu, de Alijó, estou a pagar o passe do Afonso em Lisboa! Não! Porque amanhã esse Afonso será o meu filho!

Mas digo, sem dúvidas nem arrependimento, que no mínimo, deitei um filho ao mundo, certamente para ver partir e não mais voltar ao “Interior” e eu, que me aguentei “por cá” como outros milhares de pessoas a troco do coração, ganhei – ao chegar perto dos cinquenta anos de idade -, legitimidade para gritar por mim e alguns de nós, a elementar justiça de compensarem a privação e o roubo a que temos estado sujeitos desde 1974. Não foi o 25 de Abril que fez mal ao “Interior”, entenda-se!

Foram sim, todos os políticos e governantes que o têm sustentado como uma democracia que deveria ser equitativa.

NÃO!

MERECEMOS RESPEITO.

Já que nos roubam os filhos descaradamente e exterminam as povoações sem dó nem piedade, reconheçam que precisamos de uma distinção positiva e, no mínimo, começar por isentar todos os estudantes e idosos que necessitem de transportes para a sua vida, sem esquecer, obviamente, a abolição de todas as portagens das autoestradas do Interior que demoraram mais de 30 anos a chegar quando outros já as usufruíam gratuitamente. Um aluno de Freixo de Espada à Cinta colocado em Faro, quanto gasta? Pelo caminho deixa o cinto e a espada!

É o mínimo.

Isto não é demagogia, basta irmos buscar o caso do Luxemburgo onde existem passes gratuitos para todos os estudantes, ou à Suíça onde existe apenas um pagamento anual de portagens!

E não me venham dizer que são paraísos fiscais, porque o verdadeiro paraíso tem sido Portugal, mas é para os políticos, banqueiros e outras redes tentaculares agarradas à corrupção.

Não quero um país retalhado. Quero um país talhado. Talhado para a justiça da defesa dos mais fracos e desfavorecidos? Quando acontecerá? Não sei! Mas se a democracia foi a substituta da ditadura, está na altura, de arranjar uma substituta da democracia. Ou, pelo menos, desta democracia.

 

Título: Via Esquerda

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