De Chernobyl a Retortillo

O acidente nuclear de há 35 anos deveria ter representado o fim da produção de calor para accionar turbinas e produzir electricidade a partir da fissão do átomo de urânio em reactores, mas não foi. Centenas de vezes temos estado à borda do precipício, aqui também na Península Ibérica.

Estava em Amesterdão, penso que 28 ou 29 de Abril, era então membro do executivo do European Environmental Bureau e do secretariado internacional dos Friends of the Earth International, quando numa reunião dessas se confirmou a informação de um grave, gravíssimo acidente nuclear na União Soviética.

Num país que era apresentado como maravilha da “revolução técnica e científica” por Álvaro Cunhal, onde tudo só podia correr bem e onde o professor do mestrado que então frequentava tinha, também em resposta a dúvidas que lhe apresentava, dito que era ficção científica a hipótese de fusão de um reactor nuclear (em vingança, tentou chumbar-me no fim do ano!)…

Aconteceu, no dia 26 de Abril de 1986. Hoje, muitos, muitos milhares morreram (não segundo a agência de saúde da energia nuclear, a OMS, mas de acordo com dados independentes), e todos os anos há mais sequelas e casos daí resultantes.

Deveria ter sido o fim da produção de calor, para accionar turbinas e produzir electricidade a partir da fissão do átomo de urânio em reactores, mas não foi. Centenas de vezes temos estado à borda do precipício, aqui também na Península Ibérica, e depois tivemos Fukushima, com nova fusão de reactores.

E os custos exorbitantes das nucleares, que deveriam ser investidos em alternativas, na eficiência energética e na poupança e conservação e em alternativas suaves e, assim, combater as alterações climáticas de que as nucleares são enormes ajudantes? Consulte-se as emissões desde a mineração de urânio a todo o processo de transporte e enriquecimento…

Hoje encontramo-nos perante vários desafios. Um recente acidente, que poderia ter sido muito, muito grave na central catalã de Ascó leva-nos a voltar a pressionar os governos ibéricos para agirem, o português para se informar do estado real das velhas centrais de Almaraz e o espanhol para encurtar o horizonte generoso, embora definido, é certo, que foi dado às empresas Endesa e Iberdrola e outras para continuarem a ameaçar a vida e a sustentabilidade na península. Essas empresas não nos vendem energia renovável e verde, ao contrário das mentiras grosseiras que nos impingem.

E nesta segunda-feira, dia 26, iremos numa conferência em Zoom abordar essas questões e o gravíssimo problema da mina e central de processamento de​ Retortillo que põe em causa o Douro, a classificação deste e dos seus produtos, além de ser mais um tema em que as autoridades portuguesas não se podem agachar. Se houver autorização do Conselho de Segurança Nuclear, hoje sob intensa pressão empresarial, terá que haver uma Avaliação Ambiental que nos envolva!

Igualmente, o plano de armazenamento central dos resíduos radioactivos, ora em processo de elaboração, terá que ter envolvimento nosso. Não nos esqueçamos que já houve tentativas de os colocar à nossa borda (Aldeia da Vila) e consta que Almaraz, ou a sua zona, poderá vir a ser…

Hoje, dia 26 de Abril, não esquecemos Chernobyl e estamos em Retortillo!

António Eloy – Coordenador do Observatório Ibérico de Energia

[Texto original no Público de 26 Abril 2021]

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