“Convergência” faz balanço político às Presidenciais 2021

 

Comunicado da Plataforma Convergência, do Bloco de Esquerda

O grave quadro pandémico que o país atravessa não podia deixar de condicionar as eleições presidenciais e constituir um dos temas centrais da campanha. Era impossível partir para este processo eleitoral sem fazer esta ponderação. As eleições realizaram-se na sequência de nove declarações de Estado de Emergência, uma situação de exceção constitucional nunca ocorrida, e num contexto de aprofundamento de uma crise sanitária com consequências críticas aos níveis económico e social. A crise é profunda e tende a aprofundar-se. Esta situação confronta o Estado com a urgência de políticas públicas extraordinárias, agravada pelos erros cometidos, a insuficiência dos meios disponibilizados e a dependência de uma UE em crise.  Em 2020, Portugal teve o maior número de mortes desde há cem anos no rescaldo da gripe espanhola e a situação deteriorou-se rapidamente logo a partir do início deste ano. O aumento da mortalidade deve-se à covid-19, mas também a outras patologias para as quais os cuidados de saúde aos diversos níveis já não têm capacidade de resposta.

A crise foi o espectro mais presente na campanha, terá mesmo gerado medo social e veio expor com mais evidência as dificuldades com que a maioria dos trabalhadores/as está confrontada. O desespero de uma vida difícil, cheia de direitos consagrados, mas raramente concretizados, vem desde o tempo de governos anteriores, passou pela governação Passos/Portas/Troika e agora, sem que tenha havido significativa recuperação das perdas causadas pela austeridade, volta-se à perda de rendimentos, ao desemprego, à duplicação dos despedimentos coletivos, à fome, à crise da habitação, à precariedade laboral extrema e até à degradação dos serviços públicos de saúde que são obrigados a adiar milhares de consultas, tratamentos e cirurgias.

A reeleição do PR à primeira volta era esperada. Contava com o apoio dos partidos do chamado bloco central e com elevada popularidade, reforçada com a liderança da condução do combate à pandemia, consentida pelo Governo, e pelo sentimento de “unidade nacional” que contou com suporte da esquerda parlamentar. Tudo concorreu para que Marcelo tivesse sido reeleito com 60,78% dos votos, apesar dos erros que agora começam a ser evidentes na luta contra a pandemia, de o país estar com uma das maiores taxas de mortalidade da Europa e do Mundo e de o SNS ter entrado em rutura.

O facto mais marcante do posicionamento das várias forças políticas foi o PS ter desistido de apoiar uma candidatura da sua área política, na previsibilidade da vitória de Marcelo. Privilegiou o prolongamento do entendimento com o PR como garantia de estabilidade do seu governo minoritário até final da legislatura, num contexto de crise e de uma austeridade que se instala, apesar de não ser assumida. A aliança Marcelo/Costa, selada nestas presidenciais, exprime a ideia do consenso nacional para obrigar a esquerda a viabilizar essas políticas e a circunscrever as suas exigências ao quadro institucional. Os interesses do capital ficam salvaguardados.

Uma candidatura forte à esquerda que inscrevesse no confronto político uma alternativa a esta espécie de “centrão” que continua, na estabilidade, a meter dinheiro público na banca privada, a defender o défice e a dívida, a degradar os rendimentos dos trabalhadores e a promover a precariedade, deveria ter estado no centro de uma política anticapitalista nestas eleições. A ideia de que a pulverização de candidaturas beneficiaria uma mobilização mais acentuada de votos teria algum sentido caso a perspetiva fosse alcançar uma segunda volta. Porém, como a própria direção do BE declarou, e ficou demonstrado, esse não era um cenário credível. Ao contrário da dispersão, a concentração de votos beneficiaria o reforço de um polo alternativo ao “centrão” Marcelo/Costa/Rio e diminuiria a expressão de Marcelo e da extrema direita afastando-a da possibilidade de um eventual segundo lugar. As candidaturas apoiadas pelo BE e pelo PCP acabaram derrotadas e fragilizaram a esquerda, independentemente do mérito e da coragem de Marisa Matias e de João Ferreira. Ana Gomes, por si só, veio tornar evidente a fragilidade da esquerda orgânica do PS, mas também a possibilidade de uma alternativa mais à esquerda da atual direção do PS, com o mérito de ter impedido que a extrema-direita conseguisse o segundo lugar.

O BE, não obstante manter algumas reivindicações avançadas como a defesa do SNS público, de qualidade e universal, não foi oposição e adaptou-se ao consenso PR/Governo. Viabilizou orçamentos e propostas de Estado de Emergência de forma quase acrítica, em que os direitos laborais não foram assegurados, nem os despedimentos impedidos, nem a requisição dos meios privados de saúde garantida. Optou por gerir um caderno reivindicativo por vezes com elementos confrontacionais, mas tendo sempre como pano de fundo a recuperação de um acordo com o PS, falido logo no início da Legislatura, que já tinha demonstrado as suas limitações na campanha das legislativas de 2019 e que regressou como estratégia desta direção nas presidenciais 2021. Este foi um traço comum das três candidaturas à esquerda. Um traço que as diminuiu na capacidade de mobilização cidadã e das lutas dos trabalhadores, como as da TAP e da Galp que estão hoje no fulcro do confronto com o capital e o seu governo, assim como dos setores populares desiludidos onde germina revolta. Desta forma, colocaram-se na dependência do consenso PR/Governo, o que lhes retirou força alternativa para combater o medo e para afirmar um projeto de mudança.

A extrema direita explorou a fratura social que irrompeu com mais força na pandemia. Nestas eleições presidenciais encontrou palco de afirmação, ganhou centralidade no debate político e alcançou um resultado eleitoral com uma dimensão que a colocou em segundo lugar em vastas regiões do país, da área metropolitana de Lisboa ao interior do território. Puxou por sentimentos racistas e xenófobos, mas ganhou o espaço do descontentamento e da contestação a um sistema iniquo, de que faz parte, atravessado pela corrupção, privilégios e desigualdades, incapaz de dar resposta às necessidades das pessoas. Este tem de ser o ponto de partida para o combate à extrema direita que não pode ficar pela troca de ofensas verbais. O resultado eleitoral pressiona para a radicalização da direita.

No Bloco não foi possível fazer o debate sobre o quadro político e a forma de participação nas eleições presidenciais. Numa reunião da Mesa Nacional foi informado que a candidatura de Marisa Matias iria ser apresentada. Na reunião seguinte foi proposto o facto consumado – apoiar essa candidatura. O Bloco não foi envolvido na decisão, na continuidade da prática centralista e fechada da atual direção. E é significativo que uma dirigente atire para a candidata a responsabilidade da derrota ao escrever num jornal que a sondagem de domingo “atribui ao Bloco o dobro dos votos que teve a candidata apoiada pelo partido.” Outro dirigente escreve que a explicação para “os maus resultados de domingo” está em Marcelo ter ido “muito além do seu espaço político”. Outro refere que o problema foi tratar-se de “uma reeleição” e da singularidade da situação de pandemia. Não era sabido e evidente que isso iria acontecer? Não foi tido em conta? Apesar disso optou-se por expor a candidata e o Bloco a uma vincada derrota? Não tinha sido possível debater e envolver todo o partido numa decisão sobre esta matéria da maior importância?

Neste momento de balanço, o Bloco precisa de saber qual a resposta política da direção sobre a perda de 300 mil votos da candidatura do Bloco e a concentração de votos de contestação ao sistema na candidatura da extrema-direita. Procurar desvalorizar os resultados e a derrota à esquerda, dizer que o problema está na especificidade da eleição presidencial como foi dito para a imprensa, é uma fuga desesperada às responsabilidades. As presidenciais de 2016 também não tiveram a sua especificidade?

A direção do Bloco prepara-se para desvalorizar as perdas eleitorais, tal como o fez em 2019 nas Legislativas, recusando-se a retirar conclusões sobre a necessidade de uma reorientação na linha política que se confunde, cada vez mais, com a social democracia e se acomoda nas disputas institucionais que estão a descaracterizar o Bloco e a conduzi-lo à perda de influência política. A tendência para uma possível reconfiguração da direita não pode ter como contraponto uma crescente dependência da esquerda em relação ao PS. A esquerda tem a responsabilidade de reconquistar um forte polo de influência, com autonomia e projeto próprio.  O Bloco precisa urgentemente de construir unidade em torno do debate plural, democrático e participado. Precisa de assumir o seu destino de força socialista, ligada aos combates pelos valores das classes trabalhadoras e pela transformação social.  Como é dito no manifesto “Começar de Novo”, algo tem de ser feito e este é um desses momentos, onde é necessário ver mais longe do que as ilusões e aparências recomendariam.

Janeiro.2021

https://convergencia-bloco.org/

 

1 comentário em ““Convergência” faz balanço político às Presidenciais 2021”

  1. Para ganhar a confiança do eleitorado que se ‘informa’ pelas redes sociais, que não se mobiliza em massa e de forma organizada para exigir condições dignas de trabalho (na realidade também não sente uma liderança que os oriente), e que está formatado para acreditar que um democrata exemplar é ser bem comportado, não reclamar e ir votar quando o mandam, está pois sensível aos truques dos demagogos: apontar culpados! E é isto que põe o eleitorado a abanar a cabeça em sinal de concordância.
    Em Portugal o que está a dar é dizer que os políticos são todos corruptos (mesmo que, ironicamente, isto seja dito por um comentador de futebol tornado ele próprio um político videirinho) e apontar um outro culpado qualquer, mais disperso e por isso mesmo mais próximo da ‘ira’ da pequena burguesia e do lúmpen (que por definição nem tem consciência de classe), ainda que se trate de um conjunto de pessoas cujo peso demográfico seja irrelevante, como é o caso da etnia cigana que representa menos de 4 pessoas em cada mil.
    Claro que desde há décadas persistem graves erros sociais nas políticas de integração de qualquer minoria e a política do subsídio apenas ‘porque sim’, não só não é a solução, como (se comprova) dá argumentos falaciosos aos populistas.
    Quanto à votação em Ana Gomes (Hem!? Grande pré-lançamento do Francisco Assis, recordam-se?), funcionou como tábua de salvação a que muitos se agarraram (contrabalançando a inércia semi-moribunda do PS), para que o outro não tivesse hipótese de ficar em segundo. E é verdade que também Marcelo levou votos de alguns sectores que, por receio de uma segundo volta, abdicaram de votar nos seus partidos de esquerda.
    Tudo muito fraccionado, muita falta de diálogo prévio e de (pre)visão estratégica, abandono de atitude socialista por parte do PS, alguma arrogância de outros e em vez de unidade contra a labregagem, foi o que se viu.
    Se a(s) esquerda(s) continuarem a contemporizar com o ‘mal menor’, se não se emendarem políticas pífias de combate à desigualdade e se a esquerda não formar um discurso com pelo menos um denominador comum (pesem embora as divergências de visão e da desejável e necessária diferença na acção), vamos ter reedição do descalabro nas próximas eleições.

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