Contra o fascismo sofisticado, literacia digital!

De sensacionalismo em sensacionalismo saltamos, sem sequer ver. Quando dei por mim a comentar publicação sim, publicação sim dessas notícias que circulam, em semáforo sempre verde, nas redes sociais “Essa notícia não é verdadeira” ou “Fonte?”, dei conta de uma inevitabilidade: as fake news chegaram a Portugal (se é que chegaram agora e nem sempre cá estiveram). O caminho que se segue é bastante perigoso. Do suposto Rolex da Catarina Martins, dos aumentos dos salários dos políticos em milhares, das tabelas comparativas entre funcionários públicos e funcionários do privado, carregadas de desinformação… há para todos os gostos e, principalmente, feitios.

Mas é em quem partilha e consome estas notícias que reside o perigo. O perigo de se tornarem reféns da manipulação partidária, da ideologia, do pensamento, do “caminho”. É através da manipulação que se fomenta o ódio irracional, o espírito de “nós” contra os “outros” e o fascismo. A táctica, como sabemos, não é nova, mas dissemina, prolifera, chega hoje a todo lado, a todo o tempo. Essa mesma táctica, que tem tanto de sofisticada como de velha e sabida, elegeu Trump e Bolsonaro.

Começa a ser mais usual ver-se notícias partilhas dos sites de notícias falsas que nos inundam. Os já publicamente identificados têm provavelmente mais leitores que os sites de jornais reconhecidos na praça pública: tuga.press – 25.600 leitores; evento XXI – 26.700; direita política – 38.000; luso jornal 2015 – 46.400; jornal Q – 82.000; Portugal glorioso – 127.000; bombeiros portugueses – 292.000; altamente. org – 340.000; Tá Feio – 675.000; Vamos lá Portugal – 866.000.

Eis que, inspirados pelo que se passou em França com os coletes amarelos, assistimos a constantes movimentações também impulsionadas por redes sociais, com o anonimato suficiente para que não sejam claros os seus objectivos. Os motivos podem até sê-lo, mas sabido é que, da direita à esquerda, a (grande) dificuldade nunca foi identificar os problemas, mas sim, as soluções.

Como resolvemos isto na Europa? A par com assumirmos o verdadeiro Estado Social na União Europeia, através de um real Pilar Europeu dos Direitos Sociais com uma série de princípios e direitos concretos para apoiar o bom funcionamento e a equidade de mercados de trabalho, além de sistemas de protecção social atenuadores das desigualdades sociais e verdadeiramente demolidores para esta ideia absurda de “nós” contra os “outros.” Mas enquanto não vêm, são urgentes os mecanismos para a literacia digital.

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