“Continuarei a minha luta pela defesa dos direitos do povo palestiniano”

No dia 5 de julho último, a Missão Diplomática da Palestina informou-me verbalmente de que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina exigiu a minha demissão imediata e sem aviso prévio do cargo de Assessora dos Assuntos Culturais e Imprensa, por ter condenado nas redes sociais, o hediondo assassinato do activista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana após a sua detenção.

Banat, era um activista que acusou em várias ocasiões a Autoridade Palestiniana de corrupção e que revelou ultimamente o escândalo do acordo entre as autoridades palestinianas e Israel sobre vacinas contra a COVID-19 perto de fim da validade. Nizar Banat, foi detido de madrugada do dia 24 de Junho e espancado até a morte.

Até àquele momento, a expressão do meu repúdio por aquele acto consubstanciou-se na partilha nas redes sociais de artigos que o meu pai, o escritor Farouq Wadi, escreveu sobre o assunto, na assinatura de uma carta aberta conjunta de um grupo de jovens palestinianas e palestinianos residentes em Portugal, a qual foi entregue na Missão Diplomática da Palestina, no dia 30 de Junho último. A Missão Diplomática da Palestina entregou-me uma carta de cessação de contrato, prometendo pagar uma indeminização em breve e agradecendo o trabalho desempenhado no exercício das minhas funções desde 2010.

O meu despedimento não foi o primeiro. Ihab Bseiso, Director da Biblioteca Nacional da Palestina  ex-ministro da cultura, foi demitido por ter criticado nas redes sociais este assassinato extrajudicial. As manifestações pacíficas que foram organizadas em protesto contra esta morte, foram reprimidas violentamente, usando métodos utilizados normalmente pelas forças da ocupação israelita, como o gás lacrimogêneo, manifestações estas onde muitas pessoas foram feridas e detidas. As manifestantes mulheres jovens sofreram particularmente represálias, tendo os seus telemóveis sido confiscados com a ameaça de divulgar as suas fotografias íntimas.

Especialmente hoje, num momento em que se intensificam os ataques contra Gaza e as tentativas da limpeza étnica e colonização da Palestina seja em Sheikh Jarrah, Silwan, Beita e outras localidades palestinianas, é urgente fortalecer a unidade e resistência do povo palestiniano contra a ocupação israelita. Saliento que as minhas críticas neste momento sobre os vários episódios de violência e de represálias da parte da Autoridade Palestiniana partem da minha crença da importância de reunir e juntar o povo palestiniano e não criar mais divisões.

Apesar de meu despedimento ter sido amplamente divulgado pelos meios de comunicação na Palestina e até fora, não pretendo de maneira nenhuma torná-lo num caso específico ou pessoal, mas demonstrar, através do mesmo, o ponto a que chegou a repressão do exercício de liberdade, designadamente da liberdade de expressão na Palestina.

Também não pretendo desviar a atenção da nossa luta principal contra a ocupação israelita, mas não podemos esquecer que quando lutamos pela liberdade da Palestina, lutamos por toda a liberdade contra qualquer opressão, venha ela de onde vier.

Neste momento, é importante juntar a voz das pessoas solidárias com a causa palestiniana à voz do povo palestiniano, o qual, enquanto resiste a perseguição dos seus jornalistas pela ocupação israelita, não esquece as tentativas de asfixia da liberdade de expressão exercida pela Autoridade Palestiniana. As mesmas pessoas que estão à porta das prisões israelitas para saber de membros da sua família, estão à porta das prisões da Autoridade Palestiniana para saber dos seus entes queridos. As pessoas que saem à rua contra a ocupação israelita são também as mesmas que se manifestam contra a opressão da Autoridade Palestiniana.  O luto que se faz pelos resistentes mortos pela ocupação tem a mesma cor do que se faz por Nizar Banat.

Qualquer pessoa que se junte ao seu povo na defesa dos seus direitos, onde eu me incluo, é perseguida ou despedida injustamente.  Apelo-vos juntar a vossa voz à do povo palestiniano para pôr fim a qualquer tipo de injustiça, sejam elas as perpetuadas pela ocupação israelita sejam as praticadas pela autoridade palestiniana.

Continuarei, como sempre, a minha luta pela defesa dos direitos do povo palestiniano, contra a opressão e pela liberdade, toda a liberdade.

Shahd Wadi

9 de Julho 2021

 

Foto:esquerda.net

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