Conceição Pereira – a lutadora solidária que nos deixa

“Em 1999 nasceu o Bloco de Esquerda. Foi uma alegria imensa, fazer política de forma mais alargada, com mais cabeças e mais ideias. As primeiras eleições a que o BE concorreu foi para o Parlamento Europeu e eu fui a candidata pela Madeira. Fui e sou a primeira pessoa que se candidatou pelo BE na Madeira, num partido novo, sem implantação, com muita gente a dizer enormidades contra este partido, mas começámos a lançar o BE para a frente. No mesmo ano, fui cabeça de lista do BE para as eleições à Assembleia da República, incluindo na lista o Roberto Almada que pela primeira vez entrou num partido político. E fomos abrindo caminho e dando a conhecer o Bloco de Esquerda como partido.” (“Mulheres de Abril: testemunho de Conceição Pereira” por Mariana Carneiro em esquerda.net)

Conceição Pereira, professora, nascida em 1936 na freguesia do Seixal, concelho de Porto Moniz, referência da luta antifascista, do feminismo e da esquerda madeirense, faleceu esta madrugada no Funchal.

Conceição Pereira, com 28 anos.

Começou a despertar para as injustiças sociais muito cedo. Adere à Liga Operária Católica Feminina e tem o “batismo político” em 1969 quando participa na elaboração de uma carta, dirigida ao Governador Civil, que confronta o regime com os problemas sociais e políticos sentidos no território. Participa na campanha da oposição para as eleições de setembro desse ano.

Emigra para França em 1972 e regressa à Madeira em pleno PREC.  Conceição Pereira adere à União do Povo da Madeira  (UPM), constituída em Junho de 1974 com base no núcleo do jornal Comércio do Funchal e de elementos do Centro de Cultura Operária, e envolve-se de forma organizada na luta política da região.

A UPM e a FEC-ML, de que  Paulo Martins foi candidato à Assembleia Constituinte em 1975, deram origem à UDP na Madeira. Integra o Conselho Regional da UDP e é eleita, em 1992, deputada à Assembleia Legislativa da Madeira, cargo que exerceu até 1996.

Como ativista laboral, foi eleita para a direção do Sindicato dos Escritórios numa lista alternativa à que era apoiada pelo Estado Novo. Posteriormente, participou na fundação do Sindicato dos Professores da Madeira, do qual se manteve associada até final da vida.

Em 2015, vence o 1º prémio Maria Aurora, atribuído pela Câmara Municipal do Funchal, com a sua obra “VOZES: Vivências Clamores Mensagens”.

Foi sócia e dirigente da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, desde 1976. “A causa feminista foi sempre uma área que me entusiasmou, pois sendo mulher com responsabilidades sociais e políticas não podia descurar esta causa”, refere no seu testemunho.

Em 1999 participa na fundação do BE na Região Autónoma da Madeira e é a primeira candidata madeirense na lista do Bloco para o Parlamento Europeu. Nas eleições legislativas é cabeça de lista na Região, contribuído com o seu trabalho e prestígio para a afirmação regional do BE num espaço político onde a UDP, com presença parlamentar regional, tinha uma forte tradição histórica e lideranças com reconhecimento popular, como Paulo Martins, Guida Vieira e a própria Conceição Pereira.

Conceição Pereira era presença habitual na imprensa regional. Publicou no Comércio do Funchal artigos como “História de uma mulher”, “Promoção da Mulher ou discriminação Sexual?”, “A Mulher Portuguesa e a Imigração”. Também no Diário de Notícias da Madeira,  “Conceitos e Falsos Conceitos” ou, um dos mais recentes, “Pandemia e Economia”. Animava um blog de sua autoria, designado “Pela Palavra é que vamos“, com poemas seus e textos de opinião e crítica, e publicou no Via Esquerda. Escreveu vários livros, como “A vida em movimento” (1998), “VOZES – Vivências Clamores Mensagens” (2016), “Caminhando pela Vida” (2017) e “Contos da minha terra” (2019).

“É uma mulher multifacetada que deixa uma obra literária. Não gostava de ser chamada de escritora, pois sempre afirmou que nunca teve essa pretensão, mas deixou várias obras, a maioria delas tem a ver com a luta dos direitos das mulheres, a defesa dos trabalhadores e dos mais fracos e oprimidos”, declarou à imprensa Roberto Almada, que integrou com Rodrigo Trancoso o grupo parlamentar do BE na Assembleia Regional, e que diz estarmos perante “a perda de uma intelectual e sindicalista” e das pessoas mais “solidárias e generosas” que já conheceu.

Em nota oficial, o Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, José Manuel Rodrigues, “manifesta o seu profundo pesar pela morte de Conceição Pereira. Deputada no Parlamento Regional entre 1992 e 1996, eleita pela UDP, Conceição Pereira foi uma mulher de causas que abraçou de forma entusiástica. Ao longo da sua vida foi uma ativista que esteve na fundação e crescimento de muitas organizações políticas, movimentos sociais e sindicais.”

Deixe um comentário