Caminhamos para 1984?

As distopias, ou utopias negativas, parecem ter recuperado uma nova actualidade e pertinência, talvez porque muitos vêem na actual situação internacional, em termos políticos, económicos e sociais, a materialização de algumas das suas piores previsões. Recorde-se que ao falarmos de distopias nos referimos a algumas obras de, entre outros autores Aldous Huxley (“Admirável mundo novo”, primeiro publicado em 1931) George Orwell (“1984”, 1948), Margaret Atwood (“História de uma serva”, 1985), ou ainda Philip Roth (“Conspiração contra a América”, 2004). Todas são obras literárias marcantes, naturalmente com características e narrativas próprias mas possuidoras de um conjunto de traços comuns, incluindo a antecipação de um futuro pessimista, catastrófico mesmo, para a humanidade, onde tudo aquilo que consideramos hoje como avanços civilizacionais, culturais e sociais foi posto em causa ou destruído, com a ascensão ao poder de grupos ou castas dominantes, originando profundas diferenças sociais, regimes políticos ditatoriais e ausência ou fortes limitações à liberdade e aos direitos cívicos individuais e colectivos.

Nos últimos tempos, especialmente na Europa e nos Estados Unidos da América, indivíduos ou grupos políticos que bem ou mal têm sido designados como populistas, (mas também como neonazis, fundamentalistas, nacionalistas, entre outras designações) têm subido ao poder, ou pelo menos têm aumentado consideravelmente a sua influência política e peso nas sociedades, e não é exagero ou receio infundado afirmar que paulatinamente têm vindo a materializar-se algumas dos cenários mais preocupantes destas distopias.

Um traço distintivo destas tendências é o ódio aos estrangeiros, ao estranho – no mínimo uma forte antipatia e a proliferação de atitudes discriminatórias -, e a muitos dos traços que lhes estão associados, como as diferenças raciais e culturais, diversidade de tradições e religiões, entre outros. Estas supostas ameaças são usadas como factor de insegurança, geradoras de medos, e transformadas em arma política pelas forças mais conservadoras, tornando-se ainda mais ridículo e sem sentido quando estes fenómenos ocorrem em países que se construíram nas últimas gerações através de sucessivas vagas de imigrantes, como é o caso paradigmático dos Estados Unidos da América ou de certos sectores e forças políticas em países como a França ou o Reino Unido. Mesmo nos países escandinavos – que nos habituámos a ver como exemplos de boas práticas democráticas, de tolerância e integração, de acolhimento a refugiados políticos, onde aliás muitos exilados portugueses foram bem acolhidos nos tempos do fascismo – se sentem os ventos desta intolerância, com a aprovação de medidas restritivas, diminuição dos apoios e um ambiente social cada vez mais hostil a quem tem pele escura, fala outra língua e reza a outros deuses.

Distopias, como “1984” de George Orwell (na foto), parecem ter recuperado uma nova actualidade e pertinência

De uma forma mais ampla e genérica, tem por muitos sido colocada a questão de estarmos perante o ressurgimento ainda que mais ou menos actualizado de regimes totalitários idênticos aos que subiram ao poder em diversos países na segunda e terceira décadas do século XX, e onde de um modo ou de outro se inspiraram os livros referidos no início deste texto. Não é possível fazer uma correspondência directa entre uns e outros, mas é motivo de ainda maior preocupação o facto de estes regimes desfrutarem de instrumentos de domínio muito mais sofisticados, usando as tecnologias de informação e comunicação, por exemplo no controle pelo Estado, por grandes empresas ou grupos de malfeitores, capazes de condicionar comportamentos, atitudes, opiniões e… votos. Tenha-se em atenção a este respeito a intromissão do Estado russo em diversos actos eleitorais ou outras decisões referendárias em diversos países. Sublinhe-se também o que se vai sabendo sobre a interligação entre os interesses económicos de mafias intimamente relacionadas com as famílias de Trump nos Estados Unidos ou de Bolsonaro no Brasil.

O actual totalitarismo alimenta-se como no passado de verdades fabricadas , persegue e controla a comunicação social, acossa e mata jornalistas com uma crescente frequência e um à vontade baseado na impunidade (basta ver uma conferência de imprensa de Trump), é beneficiado pelo sentimento de insegurança muitas vezes fabricado ou exacerbado pelos seus próprios apaniguados, persegue, reprime e mata os seus opositores.

Estamos a caminho do mundo inventado por Orwell? Haverá possibilidades de retrocesso ou vamos caminhando em alguns casos voluntaria e alegremente – por exemplo votando em correntes políticas populistas ou neofascistas, ou fazendo um uso descuidado da tecnologias divulgando dados pessoais que deviam ser privados – para um mundo cada vez mais… orwelliano?

 

[1] Veja-se a este respeito “A crítica mais poderosa dos EUA compara Trump ao emissário do Big Brother”, entrevista de  Michiko Kakutani ao “Diário de Notícias”, de 17 de Dezembro

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