Bloco do trabalho contra o capital

Quando há dez anos a desregulação financeira fazia a maior crise económica desde 1929, foram prometidas novas regulações e severas sanções. De Sarkozy a Obama, nenhum político deixou de criticar a banca e os seus desmandos. Até hoje não se produziram, em nenhum dos grandes atores económicos no mundo, alterações legislativas no sentido de regular o mercado financeiro. E a próxima crise global já está à espreita.

Passada uma década, nunca se produziu tanta riqueza no mundo e o capital nunca se acumulou e multiplicou como hoje. No entanto, na era das empresas de 1 trilião de dólares, os ordenados estão estagnados em quase todos os países da zona Euro há cerca de dez anos. Nos Estados Unidos o ordenado médio não cresce há 40 anos.

Todo o acerto económico necessário para pagar os abusos financeiros da banca foi à custa do trabalho: nas suas condições, reconhecimento e remuneração direta e indireta.

Mas mais uma vez o modelo capitalista, que tinha saído muito questionado na crise de 2008, reinventou-se e conseguiu convencer o mundo do trabalho que a culpa dos salários não aumentarem era dos trabalhadores e só deles.

Num passe rápido de mágica, a discussão que se centrava na regulação da finança global, que visa unicamente criar lucros astronómicos, passou a ser: “Ou há trabalho ou há direitos”.

Foto: Bolsa de Nova Iorque. Nos Estados Unidos o ordenado médio não sobre há 40 anos

Essa é a política económica que vigora até hoje. Já é considerada uma economia positiva, aquela que não aumente o desemprego. As condições dos empregos criados pouco ou nada importam. Centra-se a argumentação no crescimento económico e no desemprego e todos os males da sociedade desaparecem. É a economia à la Trump.

Para o Capital, consolidar ideologicamente uma política económica em que as pessoas devem aceitar que é melhor para elas viver pior, não é fácil. Parte das pessoas que se sentiram excluídas da economia procuraram respostas rápidas, movimentos que potenciassem a sua ira, a sua revolta. Movimentos de extrema direita que o Capital conserva na sua amplitude de diálogo, no seu campo de recursos, encontravam-se no terreno à espera. Hoje são uma realidade institucionalizada, uma realidade terrível.

No verão de 2009 testemunhámos o ressurgimento dos nazis na Europa. Eles estavam aí e com um périplo de eventos de verão a realizar no norte da Europa. A pergunta inquietava: mas porque raio ser logo ali, na civilizada Noruega, na empregada e bem paga Noruega, que haveriam de aparecer tais bestas? Os acontecimentos da ilha de Utoya (Oslo) em 2011 iriam ainda salientar essas dúvidas. Mas a ligação que Breivik, o guerreiro nórdico que chacinou 77 jovens e crianças, tinha com a comunidade através da internet, começou a clarificar o fenómeno.

O fanatismo ideológico e religioso sobrepunha-se a qualquer racionalidade ou facto. A convicção tornou-se maior que a realidade.

Foto: Bolsa de Nova Iorque. Nos Estados Unidos os ordenados médios não sobem há 40 anosA política pós facto tinha chegado e rebentado nas nossas caras.

Este é o caminho trilhado pela besta, o ultraliberalismo.

Na imensa dificuldade em ganhar eleições com programas sinceros e claros, restou apenas algo que se sobrepusesse à realidade. A mentira, as fake news, o algoritmo a trabalhar em cima de dados comprados a empresas de Black Data, e muitos outros novos instrumentos de propaganda; para garantir que esta nova economia seja aceite pelas populações.

Num combate permanente à razão, este sistema político vem se alastrando pelo mundo. A lista de vítimas não para de crescer. O Brasil foi o mais recente a juntar-se à lista. Mas nenhum país está a salvo. E Portugal, em Outubro próximo, será colocado à prova. E não tenham dúvidas que a comunicação racional e analítica perde neste novo quadro para o Whatsapp e Facebook.

Só um partido com raízes fundas na sociedade pode resistir a tal ofensiva. Só um partido capaz de dialogar e envolver pessoas, capaz de fazer da participação o seu fermento social, capaz de caminhar ao lado das lutas sociais, capaz de se respeitar, capaz de deixar de ser cabeçudo, um verdadeiro Bloco de Esquerda de massas, pode enfrentar a besta.

* Título da responsabilidade do Via Esquerda

 

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