Beja Republicana – as elites, a organização e as lutas operárias, a Comuna da Luz, a esquerda e a direita republicanas

A Exposição “Beja Republicana”, promovida pela Câmara Municipal de Beja, com coordenação de Constantino Piçarra, historiador do IHC/Universidade Nova de Lisboa, acaba de ser inaugurada. Com uma grande profusão de fotos, jornais e outros documentos , a exposição transporta o observador para Beja, no período entre a vitória republicana e o consulado sidonista até à ditadura militar.

“A história da República no país e em Beja, de 1921 a 1926, é, no fundo, a luta entre estes dois projetos diferentes de sociedade, vencendo a proposta autoritária, de que o salazarismo é a sua expressão.” (do Catálogo da Exposição)

Em evidência estão os protagonistas, as contradições, as divisões e as conquistas republicanas. Uma das salas da exposição é inteiramente dedicada à organização e luta dos trabalhadores, às greves e mobilizações de classe, e até à  surpreendente “Comuna da Luz”, fundada em 1917 no Vale de Santiago (Odemira), com o objetivo da “abolição da propriedade individual e a prática do vegetarianismo”, reprimida e encerrada pelo sidonismo na sequência da greve geral de 18 de Novembro de 1918.

O contexto da época é percorrido através de um guião que impressiona pela informação e análise que transmite sobre aquele período histórico em Beja, onde a República foi oficialmente proclamada na Câmara Municipal a 6 de Outubro. Na noite anterior, a população tinha começado a juntar-se na Praça D. Manuel, depois Praça da República. “A ligação ferroviária com Lisboa e a ação desenvolvida pela elite republicana local” tinham afirmado o Partido Republicano Português (PRP) no Baixo Alentejo.

“Feita a Revolução Republicana, os trabalhadores de Beja intensificaram a sua organização e as suas lutas”. Em Dezembro formou-se a Associação de Classes Mistas dos Operários de Beja. Em Novembro tinha surgido a primeira greve pelo pagamento integral do salário, nas oficinas da serralharia de Francisco Jorge Guerreiro. Seguiram-se lutas como a dos trabalhadores rurais por aumentos salariais ou a das costureiras pelo horário de 10 horas diárias.

Constantino Piçarra, coordenador científico da “Beja Republicana”.

“No país e também em Beja, tendo como pano de fundo a manutenção da crise económica, financeira e social” a fratura política agravou-se e colocou “de um lado a esquerda republicana, tão bem evidente em Beja, defendendo um Estado redistribuidor da riqueza e, por outro, a direita do republicanismo, cada vez mais em sintonia com as ideias autoritárias que na Europa proliferam, nomeadamente em Itália e na Alemanha”.

A exposição “Beja Republicana” prende com facilidade a atenção. Muito bem documentada, com um design atraente, de Joaquim Rosa, recorda como afinal a república é atual. Discute-se hoje, com radicalidade, nas ruas da Catalunha.

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