As eleições espanholas e a estabilidade

Em Espanha os resultados eleitorais das eleições legislativas de vinte e oito de abril apresentam um horizonte com uma nova paisagem política.

Na verdade, a rotatividade das maiorias absolutas entre o PSOE e o PP finou. Os eleitores, numa grande afirmação cívica, deram uma maioria relativa ao PSOE e uma maioria absoluta ao PSOE, ao Podemos e aos partidos representativos das autonomias e independentistas.

O PP, o Cidadãos e o VOX escolheram como eixo político colocar o PSOE num cordão sanitário. Falharam redondamente. O campo do PSOE, do Podemos e autonómico reforçou as suas posições.

É interessante que muitas das análises se centram na instabilidade gerada com estes resultados, tentando passar por cima da opção clara dos espanhóis que rejeitaram entregar a qualquer partido o poder de por si só constituir governo. Sendo o povo o soberano escolheu e só há que respeitar essa sua soberania.

Parece claro que as experiências de maiorias absolutas de PP e PSOE conduziram a Espanha a sucessivos e monumentais escândalos de corrupção que abalaram toda a sociedade de modo profundo.

Ao obrigar o PSOE a negociar compromete-o com acordos com outros partidos, impedindo-o de gerir a vida pública a seu bel-prazer.

A estabilidade gerada por uma maioria absoluta foi responsabilizada pelos espanhóis como causa desse clima de um poder quase absoluto com que o PSOE e o PP arrasaram a Espanha, levando ao descrédito do próprio regime, dado o grau de envolvimento de ambos em processos de corrupção e incapacidade de gerar consensos, provavelmente por terem maioria absoluta.

Esta “estabilidade” foi tacitamente rejeitada pelos espanhóis, criando uma nova situação. O PSOE vai ter de assumir compromissos com os partidos à sua esquerda ou à sua direita. A lógica que decorre da queda do governo de Sanchez, os eixos da campanha eleitoral, apontam para um entendimento à esquerda e com os autonomistas.

Um acordo é sempre o resultado de vontades que nele se materializam e podem dar a possibilidade de levar a cabo a legislatura até ao fim, ou seja, com estabilidade.

Falta esperar para ver se o PSOE se compromete desde já com uma saída ou prefere manter uma certa ambiguidade para tentar reforçar a votação nas eleições para o parlamento europeu.

A estabilidade da governação não decorre tout court de uma maioria absoluta, mas de uma política que responda às grandes aspirações dos espanhóis.

O exemplo português é claro. O facto de o PS não ter uma maioria (nem relativa) não impediu de governar os quatro anos e de operar uma certa viragem na política portuguesa, aliás com sucesso.

Podemos estar a assistir ao regresso da política na verdadeira aceção da palavra, na arte de realizar compromissos com forças que se enquadram num dado campo político – ideológico. O que poderá significar o fim de um rotativismo entre duas formações para tudo ficar na mesma.

A democracia é a possibilidade de encontrar saídas reais e diferentes para os impasses que o regime gera. Apresenta-se uma nova possibilidade no nosso vizinho continental. Há saídas para assegurar a estabilidade governativa.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Original do jornal Público

 

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