Alunos deram lições de vacinação cívica

Assumida finalmente a recomendação da Direção Geral de Saúde (DGS) para vacinação universal das crianças dos 12 aos 15 anos. O governo português acabou por decidir implementar a exemplo de idêntica opção que vários países já estavam a promover, alargando aos 16 e 17 anos de idade.

Vacinar ou não este escalão etário não é consensual entre a comunidade médica, pois como acontece em tantos outros países, as prioridades sugeridas pela Organização Mundial de Saúde e o Centro de Controlo de Doenças Europeu têm em conta a escassez de vacinas em países mais carenciados, numa lógica de solidariedade internacional entre os povos, na luta contra esta doença. Daí ter despertado um natural debate, a agitar a opinião pública.

Os ativistas anti vacinas bem tentaram ocupar o palco proporcionado pela falta de robustez nas decisões, sobretudo políticas, para animarem e cavalgarem dúvidas, através de repugnantes campanhas obscurantistas e ameaças intimidatórias. A resposta mais eficaz, veio dos próprios jovens alunos, que deram autênticas lições de vacinação cívica ao negacionismo, através de uma adesão massiva e consciente à toma da vacina.

A adesão das crianças e jovens adolescentes, e seus encarregados de educação, aos planos de vacinação dirigidos às diferentes fases etárias da população escolar, foi também uma resposta cívica, esclarecida e responsável. Uma resposta clara, depois de dois anos letivos marcados pela pandemia, que obrigaram ao confinamento para isolamento profilático, e ao recurso a aulas online que em muitas das experiências pedagógicas e psicológicas, não deixaram grandes saudades. A necessidade de convívio e relação social em meio escolar precisa de ser recuperado e estabilizado no próximo ano letivo, a arrancar na primeira quinzena deste mês.

A esta luz, não se entendeu o arrastamento das medidas de vacinação entretanto adotadas, quando “as crianças também são transmissoras do vírus e com a variante Delta (responsável pela quarta e mais recente vaga) tornaram-se mais transmissoras”, segundo o médico especialista em Saúde Pública Bernardo Gomes, referido pelo Expresso (06/08/2021). Este especialista acrescenta: “a evidência científica diz que é preferível vacinar as crianças”, porque se trata de “um contributo coletivo na contenção do vírus”, através desta mobilização dos jovens que poderia ir ainda mais longe, já que por enquanto, deixa os alunos do 2.º ciclo (abaixo dos 12 anos) fora do plano de vacinação, obrigando a diferenciadas medidas preventivas e de segurança por ciclo nos agrupamentos escolares. Uma estratégia que naturalmente só pode ser coerente, apostando de igual forma na vacinação de todos os adultos.

Da parte dos jovens o exemplo que deram ao país, foi de esperança e demonstração de maturidade cívica ao aderirem com entusiasmo e sem medo à vacinação, acreditando na ciência. Porque, como diria à imprensa o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, coordenador da task-force do processo de vacinação, na sequência dos protestos propagandistas e insidiosos, de que acabava de ser alvo em Odivelas (14/08/21) por um grupo antivacinas, “o negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos. Morreram mais de 18 mil pessoas em resultado desta pandemia”, e o obscurantismo só “pode ajudar a pandemia”.

Aliás, têm-se evidenciado vários exemplos de governantes e apoiantes do negacionismo e da intolerância, num mundo que já ultrapassa os 4 milhões de mortes por covid-19. Destacam-se pela negativa os efeitos da gestão da extrema-direita de Donald Trump ou Jair Bolsonaro, este, denunciado em Haia e em declarações de diversas personalidades ou manifestações, pelos seus comportamentos de genocida.

Um dia, os alunos na escola multicultural partilharão as vivências de várias gerações marcadas pelos momentos dramáticos da pandemia covid-19. Os manuais escolares de história assinalarão, sem fundamentalismos limitadores da liberdade e da democracia, o que nestes dias representou a vontade e determinação de aderir à vacinação contra uma doença cobarde.

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