Almaraz: quem resgatará Portugal?

Ao longo de anos de ativismo antinuclear, nas sessões de esclarecimento, entrevistas ou questões colocadas pelos órgãos de comunicação social, aflora sistematicamente a questão: Quais seriam para Portugal as consequências decorrentes de um acidente grave na Central Nuclear de Almaraz?

A resposta normalizada, aborda sobretudo a dimensão ambiental: uma libertação de partículas radioactivas para a atmosfera afetaria o território nacional, sobretudo os Distritos de Castelo Branco, Portalegre e Guarda; a contaminação das águas comprometeria os ecossistemas das regiões do Vale do Tejo até Lisboa.

Por norma a resposta e o imaginário das consequências directas fica assim resumido num parágrafo. Por vezes, acrescenta-se um paralelismo com o acidente de Chernobyl: muito embora a central estivesse em actual território ucraniano, foi a actual Bielorrússia que sofreu as maiores consequências ambientais e sociais.

Apesar dos custos ecológicos de um acidente nuclear em Almaraz serem motivo mais do que suficiente para uma acção determinada do Governo Português na exigência do encerramento da central, continuam por fazer cálculos dos custos sociais e económicos para o nosso país. Estamos convencidos que um estudo desse género teria um eco mais forte junto de Mário Centeno, António Costa e de alguma opinião pública.

Deixamos alguns eixos de trabalho, partindo do princípio de um acidente de nível 7 na escala internacional de acidentes nucleares, semelhante portanto aos de Chernobyl ou Fukushima no Japão.

Uma evacuação das populações até 150 quilómetros da central para protecção face à nuvem radioactiva, obrigaria à deslocação das populações dos municípios de Almeida, Guarda e Sabugal, no distrito da Guarda; Belmonte, Castelo Branco, Fundão, Idanha e Penamacor, no distrito de Castelo Branco; e Arronches, Campo Maior, Castelo de Vide, Elvas, Portalegre e Marvão, no distrito de Portalegre, um total de 220.629 habitantes, segundo dados de 2016.

Suponhamos que esta evacuação, que passaria a ser o maior movimento migratório interno da história recente do país, entre deslocações, instalação e apoio teria um custo diário de 1000 euros/dia por habitante (estimativa conservadora). O Estado Português passaria a gastar mais de 220 milhões de euros/dia, somente com esta população refugiada.

Imaginemos que a Protecção Civil estabelece um período de tempo de 20 dias a rastrear o território para realizar medições e avaliar os riscos da radioactividade: estariam gastos cerca de 4,5 mil milhões de euros, quase 2% por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Ficaria por resolver o problema das populações que não poderiam regressar ou que se recusassem voltar, a somar às eventuais e legítimas indemnizações a pagar a esta população.

Toda a actividade empresarial destes municípios ficaria suspensa temporariamente em reflexo da deslocação da população. Teríamos ainda que somar a desconfiança perpétua sobre os produtos produzidos nestas regiões.

Voltaria a comer Queijo da Serra da Estrela, ou enchidos do Alto-Alentejo? Na hora de pedir um café, voltaria a beber um Delta?

Quantas empresas e ramos de actividade sofreriam impactos económicos de curto e médio prazo? Quantas empresas fechariam? Que apoios sociais teria o Estado Português que garantir a curto, médio e longo prazo?

Levantado o véu sobre os custos das medidas de reacção rápida e de protecção face a uma nuvem radioactiva, pensemos então aos impactos económicos de contaminação do Rio Tejo, desde a fronteira até ao Atlântico.

A montante de Santarém, as actividades económicas diretamente relacionadas com o Rio Tejo, são pouco robustas, muito embora vitais para quem depende delas, pescadores, mariscadores, hotelaria, restauração e turismo, território e actividades já fustigadas por outros focos de poluição bem conhecidos do grande público.

Porém, a jusante de Santarém a economia de forma directa ou indirecta estreita para com o rio. A agricultura é desde logo o setor mais evidente, grande parte dele irrigado pelas águas do Tejo. Se ainda à pouco, não o questionámos se voltaria a comprar uma resma de papel da Navigator, papel produzido com as águas do Tejo, questionamo-lo agora se voltaria a comprar um quilo de arroz da Cigala ou Bom Sucesso, se por exemplo voltaria a comprar Ketchup da marca Heinz, se voltaria a comprar um vinho da DOP Tejo ou Lisboa ou ainda de forma mais refinada se adquiria um puro sangue Lusitano com ferro da Companhia das Lezírias ou da Coudelaria Nacional. Voltaria por exemplo a embarcar num barco da Promartur ou a jantar no restaurante do Escaroupim?

Que impacto económico anual teriam um Tejo radioactivo na economia dos distritos de Castelo Branco, Portalegre ou Santarém?

Se ainda não está convencido da urgência de acções determinadas do Governo Português em Madrid e Bruxelas pelo encerramento da Central Nuclear de Almaraz, acompanhe-nos numa última reflexão.

Um Tejo radioactivo, contaminaria por meses não só o rio como o Atlântico, pelas correntes conhecidas toda a costa entre a Figueira da Foz e Sines ficaria contaminada e interdita a qualquer actividade económica.

São as últimas interrogações que lhe deixamos: Voltaria a comer peixe da costa portuguesa? A banhar-se na Costa de Caparica? A pegar numa prancha de surf na praia dos Super-Tubos? Voltaria ao Festival das Músicas do Mundo? Faria turismo, iria de férias para uma cidade ou para um país alvo de acidente nuclear? Estamos em crer que teria pelo menos dúvidas!

A Bacia Hidrográfica do Rio Tejo, comporta no seu conjunto uma importante fatia da população portuguesa e da produção directa e indirecta do PIB nacional. A 100 quilómetros da fronteira está uma central nuclear com uma vida útil programada para 30 anos que labora continuamente há 38 anos, no limite das suas capacidades, com cada vez menos mão-de-obra qualificada e com cada vez mais incidentes registados. Para agravar os riscos, as grandes empresas energéticas em Espanha pressionam o governo espanhol para que esta central labore até pelo menos aos 50 anos.

Nos anos 70 do século passado, os portugueses decidiram não depender de centrais nucleares para evitar este quadro. Mas ele paira sobre o nosso destino. O tic-tac ecoa desde Almaraz… Tem saudades da Troika?

 

 

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