Almaraz aqui tão perto

É bom que da nossa memória se não apague o ocorrido há cerca de 10 anos, em Fukushima, no Japão. Na madrugada de11 de Março de 2011 um violento tsunami com origem num sismo de grande magnitude provocou uma grave crise nuclear na central de Fukushima 1, construída 40 anos antes, 250 quilómetros a norte de Tóquio.

Num raio de 30 quilómetros à volta da central, mais de 160 mil pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas. 36 mil ainda não voltaram. A complexa e melindrosa operação de desmantelamento da central está em curso. Poderá levar décadas.

Fukushima está lá longe, no Japão. É certo. Mas temos a central nuclear de Almaraz, em Espanha, praticamente a nosso lado, na margem do rio Tejo, a umas dezenas de quilómetros da fronteira com Portugal.

Esta central nuclear também tem mais de 40 anos e um preocupante histórico de avarias. A existência da barragem de Valedecañas, no rio Tejo, 20 quilómetros a montante de Almaraz, coloca-a também sob risco de inundação e desastre.

Nunca funcionaram bem os geradores que controlam a central de Almaraz, em caso de falha da rede exterior. Aliás, até foram colocados dois, para o caso de um deles não arrancar. O problema é que são iguais, com tecnologia igualmente falível.

Quanto aos geradores de vapor era suposto nunca serem mudados. Mas as falhas sucessivas impuseram a sua substituição, nos anos noventa. O problema é que a própria tecnologia da central, muito antiga, não previa essa substituição e não haviam sido colocados acessos na estrutura original.

Em caso de desastre nuclear em Almaraz, prevê-se que a nuvem radioativa, dados os ventos dominantes, possa atingir a serra da Estrela, em Portugal. Em 2010, uma equipa do Exército português estimou que, em caso de acidente nuclear grave em Almaraz, 800.000 pessoas em Portugal seriam afetadas pela nuvem radioativa. E água do Tejo contaminada viria rio abaixo, atravessando os distritos de Castelo Branco, Portalegre, Santarém e atingindo Lisboa.

Dir-se-á que esse cenário é impensável. Há dez anos, Fukushima também era impensável…

O atual governo de Espanha aponta para o encerramento da central de Almaraz até ao final desta década. Mais precisamente o grupo I funcionará até 1 de novembro de 2027; enquanto o grupo II poderá funcionar até 31 de outubro de 2028. Posteriormente, ultrapassada em muito a sua vida útil, a central será desmantelada, numa operação a cargo de uma empresa pública do país vizinho e cuja duração estimada é de vinte anos.

De resto, em todo o mundo — com exceção da China —, a produção de energia nuclear está em queda e a perder o mercado para as renováveis. “A energia nuclear foi eclipsada pelo sol e pelo vento”, escreveu Dave Freeman, o chamado “profeta da energia”, no prefácio do World Nuclear Industry Status Report 2017.

Mas não ignoramos o enorme poder que têm os proprietários da central de Almaraz, a Iberdrola (53%),  a Endesa (36% e a Naturgy (11%) e a sua continuada pressão fortíssima sobre o Conselho de Segurança Nuclear espanhol

Também sabemos da importância de Almaraz no quadro energético espanhol: Em 2017, a energia elétrica aí gerada ainda representava 27% da energia gerada por todas as centrais nucleares espanholas e respondia a 6,4% do consumo no país vizinho

Portanto, permanece as ameaça. E ninguém nos garante que um outro governo espanhol, depois do atual, não venha a atribuir novas prorrogações de prazo de funcionamento da central. Não seria a primeira vez.

Se permanece a ameaça nuclear em Almaraz, dos dois lados da fronteira terá de manter-se a exigência de encerramento definitivo de Almaraz. Já que o governo de Portugal nunca foi além de algumas tíbias manifestações de preocupação, então que se mantenha atenta uma cidadania informada.

Original em O Mirante

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