Alguns ensinamentos da Revolução dos Cravos

Tópicos de uma revolução

A guerra da Indochina e Dien Bien Phu, a guerra da Argélia e a guerra do Vietnam lançaram o grande e diverso movimento de resistência ao imperialismo e de crítica revoluccionária à civilização burguesa que culminou no Maio de 68.

“O fim do ultracolonialismo português” na designação de Perry Anderson, ficou a dever-se à derrota do exército colonial pelos movimentos de libertação africanos que, na sua iminência, deu origem ao Movimento dos Capitães.

O golpe dos capitães que derrubou o fascismo teve primeiro que subverter o aparelho e a hierarquia militares: o 25 de Abril não foi obra das Forças Armadas; o 25 de Abril fez-se pondo em causa as Forças Armadas institucionais.

O golpe militar do 25 de Abril foi um elogio da desobediência a que se seguiu a desobediência popular às instruções dos libertadores e, depois, às “ordenações” do próprio MFA.

Em 12 de setembro de 1974, a grande manifestação operária da Lisnave afrontando a sua proibição pelo MFA, foi a irrupção da força independente do proletariado e o desafio, correspondido, à solidariedade dos soldados.

O PREC definiu-se como uma situação revolucionária desencadeada pelo movimento popular com apoio do movimento dos soldados. O MFA, obrigado pela sua própria origem revolucionária e índole democrática, “implicado” no desmantelamento do Estado fascista – feito aliás com pouco vigor e muitas transigências: não foi capaz de julgar o fascismo nem a PIDE – foi um factor de atenuação da violência intrínseca ao Estado burguês.

A manifestação da “Maioria Silenciosa” ao apelo de Spínola em 28 de Setembro de 1974, em resposta à afirmação da vanguarda operária na manifestação da Lisnave de 12 de Setembro, e o assalto pelos ultracolonialistas ao  Radio Clube de Lourenço Marques em 7 de Setembro também sob orientação de Spínola (Ver O Fim do Império, de Ribeiro Cardoso), foram derrotados pela resposta popular em Portugal  e pela acção do MFA em Moçambique obrigando Spínola a demitir-se da presidência.

Nas colónias, a pressão do apartheid aliada à reacção colonialista e fascista constituíram o enquadramento político do movimento dos “retornados”. A  perda pelos colonos, dos de maior estatuto aos mais básicos, do poder sem limites sobre a terra, sobre as estruturas produtivas e sobre os povos desprovidos de direitos humanos, sociais e políticos ( excepção  feita aos “assimilados” que preenchiam, ao  lado dos brancos, os quadros da burocracia colonial) que caracterizava aquela estrutura produtiva e social de dominação e “extorsão primitiva” que era o colonialismo, e constituía base material do racismo ostensivo ou larvar, brutal ou carinhoso, não lhes permitiu aceitar a radical mudança histórica em desenvolvimento   (ver o excelente romance de António Lobo Antunes, O Esplendor de Portugal).

A derrota do Golpe spinolista do 11 de Março de 1975 (ver A noite que mudou a Revolução de Abril, de Vasco Lourenço, Almada Contreiras e Jacinto Godinho) impulsionou as reivindicações anticapitalistas dos trabalhadores que obrigaram o MFA a dar passos maiores do que as pernas decretando a nacionalização da banca e das empresas dela dependentes, deixando embora de fora as empresas propriedade das multinacionais. Antes, já os assalariados agrícolas no Alentejo, num movimento espontâneo exigindo aumento das jornas, garantia de emprego e redução do horário de trabalho, apontado à formação do sindicato dos trabalhadores agrícolas, tinham começado a ocupação de terras. A luta dos moradores, nas grandes cidades: «Casas SIM Barracas Não», ganhava relevo. O sentido do movimento popular era claramente o de se libertar da tutela do MFA.

A implantação persistente de factores tendentes a potenciar o papel do movimento revolucionário na afirmação de um certo poder popular, que permitia configurar uma tão temida situação de “duplo poder”, obrigou o MFA com o apoio do PCP  à elaboração dum plano estratégico da Aliança Povo MFA sob a orientação de Melo Antunes, aprovado em Assembleia do MFA, numa tentativa esboçada, mas falhada, de controlo “revolucionário” do movimento popular  organizando-o (!) a partir de baixo em comissões constituídas por assembleias por sector de actividade, morada etc. sob a direcção política fundamental institucionalizada do MFA.

A articulação das estruturas civis da Aliança Povo MFA com as estruturas do MFA nas unidades militares – ADU’s, Assembleias Democráticas da Unidade (Unidade aqui refere-se ao quartel, unidade militar) –    tendia, sob influência do PCP e um certo entusiasmo de Otelo depois da sua visita a Cuba, para um modelo próximo das milícias populares sob controlo do MFA, inspirado nos Conselhos de Defesa da Revolução cubanos.

A partir daí tem início a divisão do MFA.*

No chamado Verão Quente o confronto, ainda e apenas político, entre o Grupo dos Nove por um lado e, por outro lado, os militares afectos ao PCP e os militares revolucionários ligados ao COPCON, deu lugar a uma tentativa de solução partilhada com uma espécie de triunvirato: Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo que obviamente não resultou com o Otelo a pender mais para a conciliação com os Nove e a colaborar no isolamento do General Vasco Gonçalves encostando-o ainda mais ao PCP.

Os avanços impostos pelo movimento revolucionário tiveram como resultado a tentativa de controlar o ascenso do movimento popular com a plataforma Povo/MFA e a profunda divisão do próprio MFA.

Como resultado tivemos o Verão Quente marcado pela Assembleia de Tancos, pelo Documento dos Nove que propunha uma política social democrata de vagos contornos terceiro-mundistas  e pelo Documento do COPCON  que defendia a radicalização do movimento popular, a consolidação das conquistas alcançadas e a rejeição da NATO, da subordinação estratégica e ideológica aos EUA (Nove, PS e direita) ou à URSS (PCP).  Os subscritores e apoiantes do Documento do COPCON promoveram a maior manifestação popular de todo o PREC, a 20 de Agosto de 1975

Pelos interstícios movimentavam-se os militares maoístas como Aventino Teixeira adeptos da  revolução cultural chinesa caracterizada pela repressão levada a cabo pelas massas (a tortura de Marcelino da Mata no RALIS durante o PREC por militantes do MRPP é um momento alto de revolução cultural lusa), o equivalente chinês da repressão estatal estalinista, como suporte ideológico da estratégia terceiro mundista de tentativa de hegemonização do Movimento dos Não Alinhados (o terceiro mundo) pela China. Este é ainda, embora em condições históricas muito diferentes, o núcleo teórico da estratégia chinesa. Os militantes do MRPP nas unidades militares progressistas foram infiltrados colaboracionistas do golpe do 25 de Novembro.

Vasco Gonçalves, primeiro ministro nos vários governos provisórios desde o 28 de Setembro, ficou sob ataque dos Nove e de Otelo e, sob influência do PCP, proclama, no famoso discurso de Almada, que quanto mais isolado mais um governo revolucionário tem de ser forte**. O V Governo Provisório, de sua iniciativa dura três meses.

Sob a égide de Carlos Fabião seguem-se tentativas frustradas de programa comum das diferentes correntes do MFA. Todavia a divisão mostrou-se irreversível. Um pouco na sintonia de Vasco Gonçalves, sem o confessarem, as correntes revolucionárias estavam sectarizadas e consideravam que qualquer “conciliação”, como chamavam à possibilidade de acordo, era pôr em causa as linhas programáticas por que se batiam. Talvez tivessem razão se fossem capazes de propor ao movimento popular e dos soldados respostas que, naquela altura e naquelas circunstâncias, mostrassem caminho. Acelera-se a preparação do 25 de Novembro que já contava com a definição de unidades inimigas e a elaboração de listas de militares não alinhados e apoiantes do movimento revolucionário.

Os trabalhadores da Rádio Renascença  em maio de 1975, iniciaram uma greve com ocupação tomando conta das emissões e declararam a estação “ao serviço do povo trabalhador” e não do Episcopado. Rivalizando com o MDLP e o ELP (ver Quando Portugal Ardeu,  de Miguel Carvalho) o bombismo governamental (AMI- agrupamento militar constituído para acções repressivas que o COPCON recusava) foi a única forma que o Conselho da Revolução encontrou para romper o cerco de defesa e apoio popular e militante à luta dos trabalhadores.  A destruição do posto emissor da Rádio Renascença, usando os pára-quedistas que já tinham sido manipulados no ataque ao RALIS no 11 de Março, pode considerar-se como a primeira acção armada do 25 de Novembro.

Curiosamente ou obviamente, escolha-se o termo, foi uma acção de luta política reivindicativa dos pára-quedistas em resposta à situação intolerável em que foram colocados pelo Chefe do Estado Maior que serviu de pretexto para o lançamento do golpe reaccionário pelo PS e o Conselho da Revolução sob orientação da CIA e dos serviços secretos alemães e franceses. O papel do PCP, cuja actuação durante o PREC oscilava entre o reformismo conciliador e o aventureirismo inconsequente guiado sempre pela estratégia de controlo do movimento popular, só pode entender-se pela afirmação de Álvaro Cunhal no seu último livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril de que o PCP obteve uma vitória no 25 de Novembro.

A rija e intransigente luta exemplar dos deficientes das Forças Armadas pela sua Associação, a ADFA, mostra como a democracia e os direitos mais elementares se fundaram e erigiram no confronto contra repressão institucional do libertador MFA. Evidencia como em pleno PREC, no auge do movimento democrático, anti-colonial e contra a guerra, os deficientes foram perseguidos, espancados e brutalizados na sua luta, pelos comandos de Jaime Neves, só encontrando apoio na PM.

Tal só pode ter uma explicação: a sua simples existência era uma vibrante, indelével e permanente acusação do maior crime do século vinte português, imposto pelo fascismo, sustentando a ideologia racista e colonialista e executado pelos mesmos militares que estavam no comando da nação e que com dificuldade assumiam o carácter criminoso da guerra em que participaram empenhadamente. Até à ruptura!

Ainda hoje a esmagadora maioria dos militares é incapaz de aceitar que foi a derrota iminente na guerra o factor primeiro da sua acção para a liquidação do fascismo. Assim como os mais altos dignitários do país, desde o 25 de Abril até hoje, foram e são incapazes de aceitar que as vítimas da guerra colonial não o foram ao serviço da pátria mas sim vítimas do fascismo enquadrados pelas Forças Armadas.

O cerco à Constituinte em 12 de Novembro pelos trabalhadores da construção civil foi um derradeiro acto de luta radical que, como praticamente todas em que a influência do PCP acabava por predominar – o PCP teve sempre um pé no Governo e outro na Rua – foi orientado para impor alterações no Conselho da Revolução que favorecesse o peso dos militares afectos ao PCP relativamente aos dos Nove dado que dos militares afectos ao COPCON só Otelo tinha assento. Afinal favoreceu a provocação aos paraquedistas por parte do conselheiro da revolução e Chefe do Estado Maior da Força Aérea general graduado Morais da Silva.

Nada de novo na frente “prec-iana”: a utilização da luta popular para ajustes e acordos institucionais. Foi nessa caldoça que se cozinhou o 25 de Novembro: radicalismo inconsequente e por vezes aventureiro aliado a um reformismo banal que desorientava o próprio movimento popular que, ao lado de conquistas importantíssimas logo tornadas aptas a serem liquidadas – reforma agrária, nacionalizações – ia sendo empurrado para sucessivos becos sem saída ou para celebração do ganhos efémeros.

O 25 de Novembro, segundo a versão dos golpistas no poder desde então – a história é escrita pelos vencedores – que se impôs e institucionalizou praticamente sem contraditório com eco na sociedade, tratou -se duma reacção a um golpe da esquerda. Essa versão oficial não resiste a uma análise, mesmo superficial dos factos. Do ponto de vista político o 25 de Novembro abriu as portas à liquidação das conquistas de Abril e à reciclagem democrática dos golpistas contra-revolucionários do 28 de Setembro e do 11 de Março com representação festiva com charanga e bastão na concessão do marechalato ao general Spínola chefe dos bombistas e na reintegração de Alpoim Calvão chefe operacional dos mesmos***.

ENSINAMENTOS DO PREC

Na efervescência do PREC o dogmatismo doutrinário, o revolucionarismo inconsequente, o vanguardismo e, muito especialmente, a ideologização do combate político impediram as forças de índole revolucionária de ter papel decisivo no desenvolvimento do PREC embora tenham contribuído para grandes e importantes conquistas nomeadamente as nacionalizações, a reforma agrária e a Constituição pela dinâmica que imprimiram ao movimento popular.

Essencialmente, e esse foi talvez o seu grande mérito, pelo meio das disputas doutrinárias e ideológicas que se substituíram à livre discussão dos trabalhadores nos seus organismos de classe, dinamizaram a iniciativa popular independente na imposição de respostas directas e concretas aos problemas sociais e económicos dos trabalhadores: saneamento dos fascistas nas empresas, luta operária a alargar o campo e a acutilância da luta popular, soldados a integrarem o movimento revolucionário, “casas sim barracas não”, ocupações de casas e terras, autogestão das empresas, reforma agrária, cooperação para habitação social, escolas e postos de saúde ad hoc, cooperativas agrícolas, luta pelo controlo e gestão dos baldios; tudo questões de radical importância que mostram onde chega a iniciativa popular e permanece como património adquirido de referência para a luta actual e futura.

Por outro lado, a estratégia revolucionária exigia ter em conta a situação na Europa e, logo, que as conquistas populares deviam integrar-se numa perspectiva essencialmente anti-fascista, anti-imperialista, anti-militarista, democrática, de iniciativa popular, de instalação de sólidas bases de serviço público e estado social.

A fraqueza e complacência a que o Estado foi obrigado, privado da eficácia dos instrumentos de repressão – a PIDE desarticulada, as polícias neutralizadas e desmoralizadas, as FA’s com a hierarquia pressionada pelos militares progressistas e revolucionários sob o impulso do movimento dos soldados – apontavam para uma táctica que privilegiasse as exigências democráticas marcadas pelo apoio à iniciativa popular, nacionalização da banca, sectores estratégicos e grandes empresas, Reforma Agrária! O socialismo como referência estratégica. As proclamações de revolução socialista e outras idênticas (tentativa de instrumentalização do movimento popular para o “assalto ao poder”) apenas serviram para isolar as forças que, naquele contexto de mobilização popular, tinham índole revolucionária para colocar os interesses dos trabalhadores radicalmente em primeiro plano.

Um dos erros das forças revolucionárias foi nada terem aprendido com o Maio de 68 em França que colocou na ordem do dia a crítica radical da civilização burguesa nela (crítica) rejeitando também o socialismo do mundo soviético “que não mudou a imagem nem a justificação da natureza do homem. Estamos a morrer doentes de uma civilização que torna os homens cada vez mais opacos dentro e fora deles” como escrevia António José Saraiva de Paris para Óscar Lopes.***

Assim se preparou o caldo de cultura para que o golpe reaccionário do 25 de Novembro não tivesse oposição popular e o movimento dos soldados se desfizesse perante o poder da hierarquia a não ser na muito fraca resposta da militância revolucionária enquanto o PCP negociava os despojos.

Aliás, a razão principal para o golpe foi a neutralização das unidades militares empenhadas no apoio ao movimento popular. Mas, ao contrário do que afirma Raquel Varela, o poder militar da esquerda era reduzidíssimo face ao das unidades militares afectas aos Nove e à hierarquia que balançou muito durante o PREC mas não caiu e depois do Verão Quente se foi restabelecendo paulatinamente: entre a pujança do movimento popular e do movimento dos soldados (a “bagunça” nas FA como dizia e diz Vasco Lourenço) e a reposição da autoridade hierárquica resistente à revolução não havia dúvidas quanto à escolha: acabe-se com a “bagunça.”

A força das “unidades militares de esquerda” esteve sempre na sua ligação ao movimento popular que, por sua vez, contava com o “guarda-chuva” do MFA cujo papel se foi reduzindo à medida que a influência do PS e do PSD iam ganhando total predominância. O MFA progressista, digamos assim, começou a ficar reduzido a algumas poucas unidades que actuavam no terreno apoiadas no movimento dos soldados.

Todo o poder militar estava disseminado pelo país com relevo para a Força Aérea e a Marinha como sempre neutral: neutralidade activa no 25 de Abril; neutralidade passiva pelo acordo do PCP com os Nove: vamos dar cabo dos “esquerdalhos”!

A narrativa que se estabeleceu como norma de propaganda aceite nas FA’s e adoptada pelas estruturas do próprio MFA era a de que a tropa era apartidária. Mas os únicos considerados “apartidários” eram os que seguiam a cartilha social-democrata do PS e liberal do PPD (actual PSD).

A histérica ameaça de guerra civil por parte de Mário Soares não passou de propaganda para dissuadir quaisquer hipóteses de reacção popular. E conseguiu-o, mas, principalmente, porque o movimento popular já estava muito debilitado e isso incluía o movimento dos soldados, o que mostra a sua dependência das espectativas no MFA. Dum MFA muito dividido desde o Verão Quente e neutralizado pela sua subordinação ao PS e ao PSD, o movimento popular já nada tinha a esperar.

De qualquer forma o papel, já mais simbólico do que efectivo, das unidades militares ligadas ao movimento popular ainda perturbava seriamente a reposição do domínio duma grande burguesia que já em pleno fascismo ansiava por libertar-se do condicionamento industrial  e entrar em pleno nas delícias do capitalismo à solta, pronta para aceitar as condições impostas para a adesão de Portugal à CEE, futura U.E, como aconteceu com foguetes e girândola sob a batuta inteligente de Soares à frente dos interesses da grande burguesia: sentam-se à manjedoura mas liquidam tudo o que nos faça concorrência: marinha  mercante, pescas, indústria naval, indústria pesada, nacionalizações, agricultura. E assim foi. Mas na manjedoura só há palha. A ração é para os outros, os donos dos donos disto tudo.

E AGORA?

O mundo hoje encontra-se sob uma ameaça que, para ser conjurada, exige colocar a perspectiva  de movimentos revolucionários que, aliás, têm condições objectivas  para se desenvolverem se, do ponto de vista subjectivo, nâo se tiverem deixado subverter e alienar pela ideologia do unitarismo “necessário frente à grande ofensiva do Covid 19 e variantes” quando, aliás, é ostensivamente claro que a pandemia não afecta todos da mesma forma e que nem o vírus consegue elidir as diferenças de classe, antes as acentua.

Essa ameaça, resultante  da dinâmica predadora do capitalismo – os próprios vírus surgem e libertam-se muito por efeito da dinâmica invasiva na natureza –  caracteriza-se pela sua globalidade e, pela primeira vez, independentemente do estado de desenvolvimento dos países e regiões, é sentida por toda a humanidade.

Trata-se da emergência climática associada à incapacidade do capitalismo para a enfrentar e, pior ainda, tudo o que fizer para a conjurar apenas tem como resultado o seu agravamento. O capitalismo é obrigado pela sua natureza a crescer infinitamente e para isso reforça, não trava, a exploração predadora da natureza. A magnífica jovem Greta Thunberg, ela própria, declarou: ”Nenhum ‘acordo verde’ será suficientemente ambicioso para salvar o planeta”.

O progresso (crescimento infinito) exige mais e mais colaboração internacional ao nível da ciência – a ciência para progredir exige essa cooperação, é insofismável o internacionalismo científico – e, dentro em pouco, a exploração da energia virá impor também a unificação internacional dos esforços. Ou seja, o mais provável é, num  futuro mais longínquo ou mais próximo, vá-se lá saber, termos um governo mundial, não como garantia da paz como dizia Kautsky quando abandonou o pensamento dialéctico marxiano, mas um muito provável governo concentracionário, totalitário, apoiado no domínio tecnológico e num big brother orwelliano universal.

Por outro lado os povos continuarão a ser carne para canhão ao serviço dos complexos industriais militares que já dominam  em grande parte todas as decisões políticas das estratégias globais.

Deste ponto de vista há que contar com a possibilidade de movimentos populares revolucionários informados pelo pensamento democrático eco-socialista.

A única solução real, não ideológica claro, pertence aos trabalhadores que, por mais propostas inovadoras para pôr o capitalismo a desenvolver criteriosamente um socialismo à maneira, estão condenados, se não quiserem continuar a ser um joguete num casino onde hipotecam, sem remissão, a sua humanidade, a apoderar-se de toda a tecnologia  que já dominam tecnicamente mas que hoje ainda reforça o poder absoluto do capitalismo.

Para a esquerda estar apta a integrar as movimentações revolucionárias tem de entender que o movimento popular tem a sua dinâmica própria e não pode, não deve, ter como base para a acção  o apoio institucional a não ser aquele que consiga forçar na base do movimento eco-socialista, enfraquecendo o Estado à medida que estabelece e reforça posições, instituições e associações de iniciativa popular articuladas e vocacionadas para libertar a economia e a organização social da chantagem e do poder do capitalismo.

Os partidos revolucionários só contribuirão para o desenvolvimento do movimento revolucionário se desde já e sempre tiverem na democracia interna e no debate livre de ideias a sua coluna vertebral.

Trata-se de caminhar por sobre um Estado, a garantia em última instância do poder da finança, obrigado a ser complacente – o exemplo do PREC traz bastantes ensinamentos – e aproveitar a sua fraqueza forçada pela luta dos trabalhadores na resistência à exploração e dominação pelo capital, para sedimentar, cimentar e consolidar sucessivamente novas posições estando preparados para o confronto violento se for essa a opção do Estado burguês para impedir a ocupação de posições para a transformação radical da estrutura social e económica.

As grandes lutas que temos pela frente só podem ser entendidas e enfrentadas numa perspectiva de que luta «começada não pode ficar isolada» e que a unidade na luta tem de ser   internacionalista. Desde a revolução europeia de 1848 que assim é, a luta contra a pandemia capitalista exige a unidade global dos trabalhadores para se libertarem da usura do trabalho e do tempo, os instrumentos de dominação do capital.

Os partidos revolucionários têm de entender que o seu papel é teorizar a experiência e propor caminhos, orientar sabendo seguir. E ainda que, se propõem a democracia, só contribuirão para o desenvolvimento do movimento revolucionário e não para a sua sabotagem! se desde já e sempre tiverem na democracia interna e no debate livre de ideias a sua coluna vertebral.

A realidade desafia-nos. A ideologia é uma arma do status e da reacção.

O Bloco de Esquerda surgido para “Começar de Novo”, tem como missão nuclear contribuir na “prática prática” para ajudar os trabalhadores a perceberem as raízes da exploração e  domínação a que estão sujeito pela burguesia, estimulando-os à luta, apoiando-os politica e fisicamente nessa luta, contribuindo assim, também, para a discussão que reforce a sua unidade donde derivará forçosamente a sua capacidade de luta e de influenciar e transformar a sociedade como um todo.

O Bloco de Esquerda nasceu para capacitar o movimento popular para esta luta que, mais do que uma necessidade histórica  é uma exigência ética desde que o eco-socialismo é objectivamente uma necessidade e uma possibilidade materialmente possível.

A asserção de Rosa Luxemburgo “socialismo ou barbárie” equivale hoje a “eco-socialismo ou apocalipse”

 

Notas:

*Já expurgado dos spinolistas, mas onde ainda pontificam, instalados na hierarquia, os mais raivosos inimigos do movimento popular como o Comandante da Região Militar do Norte o Brigadeiro Pires Veloso e o seu Estado Maior assim como o Comandante da PSP do Porto major Mota Freitas que, conjuntamente com o cónego Melo e os bombistas do MDLP/ELP, integraram a conjura que perpetrou o assassinato hediondo do Padre Max e da estudante Maria de Lurdes em 2 de Abril de 1976 e montaram o esquema que em última instância impediu a condenação dos assassinos. A DINFO, criada meses antes do crime pelo Chefe do Estado Maior do Exército na altura, General Ramalho Eanes, para combater o bombismo, teve ordens para nada fazer segundo revelou o silêncio comprometedor do seu Chefe, Serradas Duarte quando o advogado das vítimas, Mário Brochado Coelho, na última sessão do julgamento, a que assisti, depois de não obter resposta à pergunta óbvia porque não agiu a DINFO insistiu: “teve ordens para isso?…” Tratou-se mesmo daquilo a que pode chamar-se uma conspiração.

O Spínola golpista, chefe no exílio dos bombistas do ELP e do MDLP virá mais tarde a ser Marechal de Portugal por iniciativa de Mário Soares e do PS.

**Ouvimos algo parecido, relativamente à direcção nacional do Bloco no debate de Lisboa das Moções  à Convenção.

***Do ponto de vista operacional basta referir que, estando a Pátria em perigo, à beira da guerra civil, sob um golpe de Estado da esquerda, o supremo magistrado da nação, o Presidente da República e Comandante Supremo das Forças armadas, no seu palácio de Belém a100 metros do Regimento de Polícia Militar, tão perigoso que foi o único a ser atacado provocando três mortos, não tinha qualquer força a protege-lo para além da guarda normal de todos os dias. Ainda não está dito o essencial?

****O movimento que levou ao Maio de 68 em França começara antes nos EUA na luta contra a guerra do Vietnam. Teve incidência mundial, do Japão ao Brasil, chegando à RFA e a Itália, ao Brasil dos generais e à Grécia dos coronéis, e ganhou uma amplitude nunca vista na Europa. A liquidação da concomitante revolução checa pelos tanques do Pacto de Varsóvia pode fazer-se equivaler à ameaça de De Gaulle de fazer avançar o General Massu – o carrasco torcionário  da batalha de Argel durante a guerra de libertação argelina; ver Djamila Boupatcha de Simone Beauvoir– com as suas tropas contra as manifestações cada dia mais radicais dos estudantes e do proletariado francês.

As ideologias, ao contrário do que sucedeu no nosso PREC, perderam praticamente toda a influência face à força avassaladora da unidade, conquistada na luta, entre as duas vertentes decisivas da sociedade francesa: o proletariado e os estudantes

Essa amplitude impôs-se mobilizando a sociedade e isolando a grande burguesia mesmo numa situação em que o Estado não tinha sido abalado, ao contrário do nosso 25 de Abril. A derrota do movimento estudantil e operário, a derrota da revolução, deveu-se, na altura, à capitulação do PCF e da CGT amedrontados por De Gaulle, desviando a luta de rua e a greve geral de 10 milhões para a resposta institucional, a convocação de eleições.

Original da Convergência

A legenda da foto inserida no texto é da responsabilidade do Via Esquerda

 

Deixe um comentário