Ainda a propósito do Brasil e dos EUA

A democracia é , neste momento, uma menina ameaçada pela conduta de quem dela desfruta.

Mas isto não vai durar sempre. E não vai, porque se nota e se ouve uma clara ameaça aos valores que a mesma defende mas deixa que ameacem, porque é essa uma das suas matrizes.

A verdade é que o legislador da democracia foi um homem que pouco se preocupou com as mulheres, por exemplo;

o legislador da democracia foi um homem que não abria mão da liberdade de expressão, da liberdade de reunião e da liberdade de associação –  embora a preferisse secreta – mas também não cuidou de evitar os seus excessos;

o legislador da democracia ainda não adivinhava as redes sociais;

foi o mesmo que tratou sempre de ponderar, com cuidado extremado, afrontas a algum dos seus interesses corporativos  ou familiares porque foi ,(e é) quase sempre, um homem das elites.

Conclusão: o Legislador nem sempre tem razão, nem sempre está actualizado, nem sempre cumpre o dever deontológico de legislador.

Talvez por isso o legislador deva mudar (e, penso, já está a mudar), mas no sentido social e democraticamente exigível .

Primeiro as mulheres. Estas fazem toda a diferença numa democracia. E ainda não estão conseguidos todos os seus direitos. Até mesmo em Portugal, a mulher ainda está muito aquém da plenitude dos direitos individuais. E com isso sofre a democracia. No nosso país, a mulher ou está muito bem informada, sabe o que quer, estuda e trabalha em função da própria dignidade e independência, ou então não passa de um complemento do homem, da família, ou do grupo onde trabalha e se insere.

No Brasil, sabe-se, o eleitorado feminino luta pela afirmação, reage ás incríveis posições intencionalmente misóginas do candidato e está mais seguro daquilo que não quer. E o que não quer é certamente aquilo que ninguém quererá: que a democracia, ela própria, permita que alguém a destrua destruindo direitos seja de quem for.

A democracia ainda não conseguiu pôr travões na origem dos que se candidatam a governantes e/ou legisladores. E  existem múltiplos  travões que poderiam ser legitimamente colocados se os legisladores estiverem de boa-fé. Estamos a falar de cadastrados, pessoas condenadas por atentados à democracia e por abuso de poder, pessoas que em algum momento professaram ideologias xenófobas, racistas e exterminantes, pessoas que desafiam todo o tecido da democracia em nome da democracia , pessoas que poderão usufruir das alterações legislativas que defendem, etc.etc.

O Homem legislador da democracia não soube dar ao tecido social aquilo de que ele mais precisa: formação e consciência multicultural . Pelo contrário: manipulou sempre o ensino e dificulta o seu aperfeiçoamento e a sua elevação em negação ao aperfeiçoamento e à segurança cultural e histórica que os tempos exigem.

E agora a democracia já tem medo; estão a meter-lhe medo porque dizem que votar à esquerda gerará, logo de seguida, votações capitosas na extrema -direita que, por seu turno, poderá varrer a democracia do mapa.

As redes sociais não foram consideradas quando o legislador legislou sobre a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Se fossem tidas em conta, na altura, as leis seriam diferentes. E é bom que este legislador com perfil ainda machista, apondo ainda sacanice na letra da lei, envaidecido ainda pelo poder que lhe colocaram nas mãos e tentando celebrar, ainda, em cada lei, uma atitude corporativa e não universal, ache depressa o caminho para resolver o problema de cada um pretender  ter a sua lei, de a lei de outros países vigorar no nosso país e, pior ainda, ser a lei de grupos económicos invasores que os determina ,lhes provoca cegueira e lhes induz a inacção legislativa.

E o mais triste é que seja a própria democracia a consentir que nasçam no seu seio os monstros que a destroem.

Quando vejo homens cultos, bons jornalistas embora direitistas e outros actores da cena mediática e política evitarem atacar Bolsonaro, ou justificarem  e congratularem-se com a sua ascensão com o argumento da corrupção à esquerda, fico deveras surpreendido. E fico, porque a mim nunca me admitiram agredir alguém porque alguém me agrediu; porque a mim nunca me permitiram exceder a velocidade na estrada porque alguém a pode exceder; porque me está vedado o acesso à justiça só porque considero que fui mal governado e explorado durante quarenta anos;  porque a mim nunca ninguém me permitiu dizer a verdade nas redes sociais sem ser ofendido; e porque, se me envolver numa guerra dessas, fico sujeito a ameaças, a ataques de caracter e a toda uma erosão da maledicência e do insulto fácil que fazem parecer que eu é que não me devia ter metido com aquela gente o que, na minha opinião, vai fazer prevalecer a opinião da boçalidade, da intransigência, da desumanização e da barbárie contrárias ao Estado de Direito, à lei, à decência, ao respeito mútuo, à igualdade e à própria democracia. E as redes não fomentam qualquer respeito por esses princípios.

Que conclusão tirar deste verdadeiro problema?

Que atitude tomar perante  este desconchavo ?

Primeiro é preciso esclarecer que votar à esquerda não foi factor inibitivo ou extirpador da democracia e que esta aparente divisão fracturante reflecte, tão só e apenas, a determinação normativa de se recorrer  a uma segunda volta quando restam em contenda apenas dois candidatos. Já aconteceu em Portugal e poderia ter degenerado num grave problema quando se enfrentaram Mário Soares e Freitas do Amaral. Se tivesse vencido Freitas do Amaral estavam preparadas milícias armadas, sabe-se , que fariam um périplo armado por tudo o que eram UCP(s) e cooperativas agrícolas geridas pelos trabalhadores. Felizmente tal não aconteceu e a esquerda vencedora não exerceu qualquer tipo de sevícias sobre os vencidos – tal não aconteceria se fosse ao contrário.

Não esquecer que antes existiram mais candidatos com outras propostas e outros mapas discursivos e democráticos .

O que não acontece , de forma permanente, nos Estados Unidos, onde os partidários de uns não admitem os partidários de outros e onde dentro do próprio partido podem conviver Trumps e John macCains  porque não existem outras alternativas – males de democracias velhas que não se adaptam aos tempos.

Todavia, o legislador europeu também está adormecido ou então está vencido pelos interesses hegemónicos destes meninos sábios que não querem saber de desgraças. Interessa-lhes facturar. Nada mais.

Podem dizer: nada disso ameaça a democracia; não é isso que define o voto das pessoas; essa apologia do ódio e da boçalidade não define o posicionamento político.

Nada mais errado; nada mais ingénuo; nada mais suicidário.

Recomendo vivamente aos legisladores ainda machistas:

1º – Que se debrucem sobre este fenómeno e coloquem nos braços da balança dois pesos: O que é a favor e o que é contra a democracia.

2º -Que se desprendam de pretensas e ilusórias ligações parolas e solidariedades teóricas ou ideológicas, (sempre  ignoradas e desprezadas  pelo outro lado no pressuposto de não esperar força contrária capaz) e legislem eficazmente a favor da própria sobrevivência e da “nossa” democracia;

3º -Que se inteirem e tirem conclusão das influências das redes socias – como lhe chamam – já denunciadas nas eleições dos Estados Unidos e do Brasil;

4º -Que lutem contra a corrente e exijam um controle eficaz sobre a extrema violência verbal das tendências obscurantistas e orquestradas;

5º- Que contrariem de forma corajosa tudo o que aparentemente vem permitir um debate maior de ideias, quando o único intuito é o de soltar o verbalismo unipessoal aparentemente cheio de razão – para pensar que se tem razão basta não saber nada – e construir, com apelo ao mecanicismo seguidista, uma estrutura falsa de apoio não à discussão, mas à conclusão atrófica que acabará por prejudicar até mesmo aqueles que a ela se associam.

Democracia é responsabilidade.

O legislador, enquanto dorme, está a meter-se num buraco – cova de Montesinos. Está a ser ultrapassado pela realidade. Está a pactuar com a súbita apoplexia social que imagina, a todo o momento, palcos de condenados onde a fogueira já arde.

A lei é o contrário da barbárie…

o legislador… nem sempre

(Nota Via Esquerda: este texto foi escrito antes das recentes eleições presidenciais no Brasil)

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