Agricultura, Mundo Rural e Feminismo

Um dos pilares da PAC são as políticas de desenvolvimento rural.

Será possível desenvolver tais políticas sem incluir as mulheres?

Parece que assim é!

Na Agenda para o Interior que faz parte do Programa Nacional para a Coesão Social existe um conjunto de medidas importantes, mas em nenhuma delas se referem as mulheres do interior, das aldeias, apesar de serem elas as que mais têm resistido a permanecer nos territórios em abandono. Apesar do papel importante que podem vir a desempenhar nas suas comunidades, esse papel não é considerado, nem existem formas de valorizar as suas competências.

As populações das aldeias no interior do país são, na sua maioria, constituídas por mulheres idosas e algumas jovens que tendem a emigrar ou migrar, por falta de perspetivas e emprego local.

Com a chegada da Troika em 2011, a agricultura perdeu 100 mil mulheres. Desapareceram milhares de pequenas explorações agrícolas, onde as mulheres tinham o principal papel.

E quem está mais próximo das aldeias sente isso regularmente.

A Lúcia do Fujaco foi para a Suíça. Na sua aldeia não tinha condições para continuar a ajudar a mãe numa agricultura de sobrevivência.

A Catarina que até há pouco tempo geria a sua pequena exploração agrícola onde também criava animais teve que ir trabalhar a distribuir pão e a deixar a agricultura de lado. Apoios? Tentou vários, mas não conseguiu.

A Palmira, foi ter com o marido a França e deixou as terras ao abandono.

A Rosalina passou a trabalhar num restaurante e a tratar dos terrenos apenas ao fim de semana.

A Custódia vende os seus produtos no mercado tradicional de S. Pedro do Sul todos os sábados, mas anda desanimada. O que vale é que o marido trabalha na construção civil alguns dias, mas sem regularidade de contrato. Já tiveram de deixar terras a monte. Quem lhes compra o que produzem? Problema: escoamento de produtos.

Enfim, estas situações multiplicam-se por todo o lado, num país que diz que quer combater a desertificação das zonas rurais do interior.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Susutentável aprovada pelas Nações Unidas traça dezassete objetivos, dos quais se destaca o objetivo 5º: Alcançar a Igualdade de Género e empoderar todas as mulheres e raparigas. E o objetivo 10º diz que é necessário a “Redução das desigualdades no interior dos países e entre os países”.

Quando se afirma que “Igualdade é desenvolvimento” pretende-se valorizar o papel que as mulheres podem assumir no desenvolvimento das suas regiões.

As desigualdades entre sexos, etnias e regiões são desintegradoras, excludentes e geram assimetrias de poder, que muitas vezes se cristalizam e naturalizam através de práticas que lhes dão suporte. Combater estas práticas implica que as questões da igualdade entre mulheres e homens, entre pessoas de diversas etnias e entre regiões possam ser palco de preocupação e de intervenção por parte de autarquias locais, ONG e de outros agentes sociais.

O Relatório da ONU Mulheres publicado a 14 de fevereiro deste ano: “Transformando Promessas em Ações: A Igualdade de Género na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” também nos remete para a ligação da área da Igualdade a outras áreas como a do Ambiente, onde as mulheres têm um papel fundamental na proteção da biodiversidade e dos recursos naturais, pois são elas que normalmente preservam as sementes e certas culturas mais tradicionais. Também sabemos que não pode existir um desenvolvimento sustentável se este não estiver ligado à preservação dos recursos naturais.

Existem muitos recursos por aproveitar onde as mulheres podem ter voz ativa e encontrar soluções criativas, desde que apoiadas. As comunidades rurais são votadas a um isolamento excludente que, para além de geográfico, é também social e cultural.

Ao falar da agricultura não se pode deixar de falar de soberania alimentar, de preservação de recursos naturais, de actividades que recuperem as aldeias com as pessoas que nela residem e não fazer aldeias fantasmas onde só lá vão os turistas, uma ou duas vezes por ano.

Ao falar de agricultura não podemos deixar de convocar os responsáveis governamentais para que não se passeiem só pelas Feiras da Agricultura, mas que vão às aldeias falar com quem vive nesses territórios sem esperança.

Ao falar de agricultura temos de falar das mulheres e de as ouvir.

Como feminista que sou penso que são as próprias mulheres dessas aldeias que devem fazer ouvir as suas vozes e não eu. Pode ser que em próximas iniciativas sejam elas que estejam aqui a denunciar as situações em que vivem e a reivindicar atenção, apoios para fazer das aldeias onde vivem territórios com futuro.

(Intervenção no debate sobre a revisão da PAC, promovido pelo Bloco de Esquerda, no dia 14 de Outubro de 2018, em Santarém)

Deixe um comentário