Acumulação obscena

O relatório de 2019 da Oxfam – organização internacional que luta contra a pobreza, as desigualdades e as injustiças sociais – revela que a desigualdade na distribuição de riqueza em todo mundo está “fora de controlo”.

Em 2018, os 26 mais ricos do mundo tinham em seu poder tantos recursos como os 3,8 mil milhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da população mundial.

A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes.

Esta absurda acumulação de riqueza só é possível por os estados adoptarem políticas que precarizam os vínculos laborais, exploram o trabalho infantil, pagam salários abaixo da sobrevivência, discriminam as mulheres e permitem que o capitalismo financeiro e de domínio das grandes empresas multinacionais tirem partido de um quadro legal que lhes permite ter benefícios, isenções fiscais, recorrendo ainda à evasão e à elisão fiscais (através dos offshores) de modo a se apropriarem da riqueza produzida, maximizando os seus lucros.

Se a isto acrescentarmos o saque que é feito às riquezas dos países, por parte das suas classes dirigentes, percebemos bem quanto é obscena e ilegítima a riqueza assim conseguida.

O caso Isabel dos Santos, agora na berra, com as ligações a grandes grupos económicos e a personalidades políticas e dos negócios em Portugal – que está muito longe de ser caso único – ilustra bem como se fazem grandes fortunas e à custa de quem.

O Papa Francisco já por diversas vezes denunciou esta obscena acumulação de riqueza. Em Dezembro de 2018 condenou a ganância e o apetite voraz e ganancioso de quem assim procede. Mais recentemente, o Papa Francisco afirmou que o “apego às riquezas é uma idolatria” e reafirmou a ideia evangélica de que não é possível “servir a dois Senhores”.

Se refiro o Papa Francisco não é só pelo facto de me parecerem as suas afirmações oportunas e justas, mas sim por uma boa parte dos decisores políticos e empresários que dominam o mundo se apresentarem como cristãos e em muitos casos, católicos. Porém, embora possam saber o que o Papa diz, fazem “ouvidos de mercador”. De tal forma isto é que Francisco diz mesmo que quem coloca o dinheiro acima de tudo (e, portanto, continua a perpetuar esta iniquidade) olha a “religião como uma agência de seguros” que lhes permitirá possivelmente aquietar a consciência.

A obscenidade, a irracionalidade de uma acumulação de riqueza como a que sucede ainda é mais incompreensível se tivermos em conta que os seus detentores acabam por não conseguir gastar parte significativa do que acumulam. Na verdade, para satisfazer todas as suas necessidades, por muito esbanjadores que possam ser, não conseguem, nem precisam de utilizar uma parte significativa dos recursos que possuem.

Só a voracidade, a ganância e a idolatria pelo dinheiro podem justificar tal desejo de acumulação de riqueza à custa de muitos milhões de excluídos da sociedade e que sobrevivem em condições, em muitos casos, desumanas.

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