Abril deseja utopia

45 anos depois, Abril apetece poesia, Abril deseja utopia.

Não conheci o Abril de antes. Só sei do Abril de entretanto: o dos livros, o da música, dos festivais, da escola para todos, da universidade para rapazes e raparigas, o dos votos e das campanhas. Sou do abril da Europa, do mundo, das viagens. Sou do abril da queda do muro, sou do abril sem fronteiras.

Estas foram as portas que abril me abriu, nos abriu. Talvez este tenha sido o Abril sonhado.

E hoje? E amanhã? Recordo as palavras e questões do antropólogo Viveiros de Castro e da filósofa Deborah Danowski(1) quando afirmam que «entrámos num mundo verdadeiramente desconhecido (…)» e perguntam: «se tentarmos imaginar como será a vida daqui a uns 50 anos veremos que, quer queiramos quer não, será muito diferente da nossa vida presente. Haverá ainda viaturas individuais e estradas a cobrirem uma parte enorme da superfície da terra? Haverá as mesmas grandes empresas que dominam hoje o mercado? Será a floresta amazónica ainda uma floresta…? Qual será a nova geopolítica? Haverá ainda países, no sentido dos Estados-nação? Quantos serão os refugiados ambientais e políticos, e onde estarão? Seremos – todos nós – também refugiados? O que será dos índios e dos outros coletivos extra-modernos? Como se fará a distribuição dos últimos recursos? E guerras? Que novas comunidades serão criadas?»(2) Às suas perguntas ainda não temos respostas. Sabemos porém que a promessa feita à minha geração de que o processo igualitário continuaria em crescendo, está em falência. E a Liberdade tem de se desdobrar em todas as frentes e em desejo de maior equidade, de justiça, num equilíbrio de milhares de milhões de desejos individuais e coletivos. Continuamos a ansiar por novos amanhãs que cantem. “A Revolução ainda vai a meio”, dizia ontem o meu amigo Zé Ribeiro, depois de me lembrar de duas ou três coisas importantes sobre a gerigonça e os sindicatos e depois de me falar da sua Benvinda, o seu amor maior, e dos dias na prisão no Forte de Peniche.

Numa carta de um abril já ido, de 1947, dizia Maria Lamas ao seu amigo-amante Ferreira de Castro: «Não houve reacção da censura? Justamente pelo que tem de real, sereno, claro e belo, este livro é uma acusação tremenda. Compreendo que eles tenham medo…»(3) Eles tinham medo, dizia, mas deste lado ela não tinha medo, os que resistem são destemidos e obstinados: «Pode o Governo, através da sua máquina repressiva, tentar isolar-nos do Povo e aniquilar materialmente as nossas vidas. Coisa alguma, porém, poderá destruir ou imobilizar a força indomável que nos impele na conquista da liberdade. Não é encerrando num cárcere aqueles que protestam contra injustiças e violências que se anula a razão desses protestos.»(4) Escrevia ainda Maria Lamas, em carta dirigida ao presidente do Conselho, falando ela em quebrar «os obstáculos, riscos e provações que tivessem de defrontar, para se manterem «unidos e inabaláveis na luta pelas liberdades fundamentais e pelos direitos do Povo » E entoava ainda nessa carta em 1950, a palavra democracia e falava em regimes anti-democráticos…

Hoje pergunto, citando o filósofo Roberto Esposito(5): «Como imaginar um consenso informado, necessário à expressão democrática do voto, num cenário em que os media estão nas mãos de um pequeno número de empresários voltados para a proteção dos seus próprios interesses?»(6) Alerta o filósofo para o facto de «as categorias constitutivas da democracia terem adquirido hoje novos sentidos.»(7) e diz ele: «A soberania tornou-se governamentalidade, a representatividade transmutou-se em representação televisiva. E isto transformou o público (antes oposto a privado) em mediático. E a identidade entre governantes e governados passou a identificação imaginária, com perda de todos os limites entre o simbólico e o real.»(8) Este alerta que Esposito nos traz, deixa-nos perplexos. Perplexos perante a necessidade de uma nova maneira de fazer, de agir e de pensar novas revoluções, viragens sociais, económicas, culturais estruturantes. Esta “novidade” coloca-nos numa nova discussão, em termos de uma pós-democracia. Tomemos consciência desta mudança profunda e irreversível e das exigências que nos traz para novas lutas, novas linguagens políticas, e reinventemo-nos, pois, no confronto com todas as feridas, velhas e novas. O vislumbre dos mundos que desaparecem, por certo trar-nos-á a esperança de outros mundo que se abrem.

 

(1) Em entrevista à Revista Electra, ed. Fundação EDP, março 2018, pp. 88-99

(2) Viveiros de Castro e Deborah Danowski, Em entrevista à Revista Electra, ed. Fundação EDP, março 2018, p. 93

(3) Carta publicada na exposição “Mulheres, Paz, Liberdade. Maria Lamas”, 2017 (org. Município de Torres Novas/Assembleia da República)

(4) Carta publicada na exposição “Mulheres, Paz, Liberdade. Maria Lamas”, 2017 (org. Município de Torres Novas/Assembleia da República)

(5) Roberto Esposito, «A Nova Linguagem Política: pós-democracia e biopolítica», Revista Electra, ed. Fundação EDP, março 2018, pp. 78-87

(6)Roberto Esposito, «A Nova Linguagem Política: pós-democracia e biopolítica», Revista Electra, ed. Fundação EDP, março 2018, pp. 84

(7/8) Roberto Esposito, «A Nova Linguagem Política: pós-democracia e biopolítica», Revista Electra, ed. Fundação EDP, março 2018, pp. 86

[Intervenção em celebração do 25 de Abril]

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