A utopia de Maio

António Gedeão no poema “Pedra Filosofal”, que Manuel Feire com o seu canto consagrou, dizia que “Eles não sabem, nem sonham/que o sonho comanda a vida,/que sempre que o homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida /entre as mãos de uma criança.”

Todas as utopias nascem dos sonhos e por muito irrealizáveis que pareçam são elas o fermento de avanços sociais, civilizacionais e científicos.

O 1º de Maio é fruto, exactamente, da utopia daqueles que não aceitaram, nem aceitam a sujeição, a dominação das elites ricas e poderosas sobre a maioria daqueles – homens e mulheres – que com o seu trabalho, muitas vezes em condições de exploração desumanas, são os principais produtores da riqueza gerada em todos os países.

Por outro lado, o 1º de Maio para além de assinalar a luta por melhores condições de trabalho e de vida, também está intimamente associado a avanços sociais e civilizacionais fundamentais como é o caso do direito de voto universal, dos direitos das mulheres, da igualdade de género e da oposição ao trabalho precário, ao trabalho infantil e a todas as formas de exploração a que querem sujeitar milhões e milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Em Portugal nos tempos que correm as tensões sociais e a luta por melhores condições de vida e de trabalho têm assumido expressões muito duras. Novos sindicatos aparecem, aparentemente muito acarinhados pelos sectores mais conservadores e de direita que nunca estiveram com os trabalhadores. Este carinho é muito duvidoso e antes resulta de um combate político e social que se trava no nosso país, bem como por esse mundo fora, onde os grandes interesses do comércio internacional, da finança e da banca com total despudor procuram fazer regredir e anular direitos sociais, políticos e civilizacionais que nos últimos séculos foram sendo paulatinamente conquistados. De resto, a conflitualidade social existente está a motivar que a direita, que tanto acarinha esta situação, comece a dar mostras de procurar limitar severamente o direito à greve e a própria actividade dos sindicatos.

As forças mais progressistas e o movimento sindical com novos desafios pela frente que passam, por exemplo, por lutar por políticas sustentáveis que detenham a destruição do nosso planeta, não podem deixar sem resposta as legítimas reivindicações dos diversos grupos de trabalhadores. Porém, estará a faltar uma grande dose de solidariedade que traga todos à luta por um salário mínimo nacional decente e por políticas com uma melhor e mais justa distribuição da riqueza que combata o aumento da pobreza.

Por muitos avanços tecnológicos e científicos que haja, por muito que novos tipos de trabalho surjam e muitos outros desapareçam, será sempre incontornável saber quem se apropria da riqueza produzida e como será esta distribuída.

Todos em unidade de acção lutando por melhores salários, condições de trabalho e de vida começando por defender os mais desfavorecidos. Será por ventura um sonho, uma utopia realizar uma greve geral (envolvendo a sério os sectores com maior capacidade reivindicativa) pelo aumento do salário mínimo nacional Porém, o que faz do 1º de Maio um momento singular que celebra as lutas dos trabalhadores de todo o mundo é exactamente o sonho e a utopia que faz avançar as sociedades e tem permitido consagrar, com avanços e recuos, há mais de um século os direitos dos trabalhadores. A utopia e o sonho comandam a vida. Ai de nós se assim não fosse.

 

Original no Blogue O Navio de Espelhos

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