A sociedade da bufaria ou a saudade do homem que mordeu o cão

Vivemos um tempo de bufaria. Hoje, qualquer cidadão está sujeito a ser exposto na praça pública – redes sociais, comunicação social tradicional – pelas mais ínfimas e prosaicas situações, mesmo que estas não tenham qualquer relevância pública.

Que interesse tem filmar e divulgar nas redes sociais, por exemplo, que a jornalista Judite de Sousa teve uma discussão de trabalho com um seu colega operador de câmara? Todos os dias acontecem discussões no trabalho, na família, entre as mais variadas pessoas sobre os mais diversos assuntos, muitos mesmo do foro pessoal e que não deviam sequer merecer a atenção de terceiros.

Sempre nos disseram que é, no mínimo, feio, espreitar pelas fechaduras, escutar atrás das portas, ou espiar os outros.

Com os meios tecnológicos que hoje dispomos já não é assim. Qualquer um que esteja sentado num banco de jardim, num momento de relaxamento, com um dedo no nariz pode ver a sua imagem difundida até à náusea e ser objecto de todo o tipo de considerações atentatórias do seu carácter.

Este “voyeurismo” tecnológico é alimentado nas redes sociais mas encontra na chamada comunicação social tradicional, alguma até que se diz de referência, ampla cobertura e divulgação.

A procura do escândalo, da notícia que choca compra audiências e vende publicidade como pãezinhos quentes. Daí que as fake news sejam tão populares pois além de manipuladoras são sensacionalistas e muitas vezes alimentam certos ódios de estimação reforçando convicções que muitos têm como inabaláveis.

A bufaria chega mesmo a ganhar foro de cidadania. Na verdade não se percebe como é que a justiça possa deter suspeitos da prática de crimes, decretar a sua prisão preventiva para não contactarem com outros arguidos para não prejudicar as investigações e,  ao mesmo tempo, permitir que os seus interrogatórios em sede da investigação sejam tornados públicos.

Uma coisa é reconhecer a importância das forças policiais e de segurança, reconhecer o risco da sua profissão, exigir que estas tenham as melhores condições de trabalho – carreiras, remunerações e os meios necessário à sua actuação – outra bem diferente é pactuar com abusos de autoridade como a divulgação de fotografias de detidos em situação humilhante e que em anda contribuem para o objectivo de se fazer justiça. Na idade média é que se arrastavam pelas ruas todos os acusados – culpados ou não – exibindo-os perante o “povão” sedento de emoções fortes. Pelos vistos há quem goste de o fazer agora mas nas redes sociais.

Sem querer ser alarmista nem pessimista e acreditando que o ser humano será sempre capaz de lutar por um futuro melhor não deixo de constatar que há algo de assustador que nos assombra.

Saudades, saudades pode-se ter de quando sensacionalista era a notícia do homem que mordeu o cão.

Artigo originalmente publicado em: O Navio de Espelhos

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