A Revolução é uma coisa do passado?

Parafraseando o «Manifesto do Partido Comunista», a história de toda a sociedade não tem sido senão a história da luta de classes e das revoluções. Por isso, a questão central que o mundo de hoje nos coloca, mais do que saber se a revolução ainda é possível, é saber como é que um partido revolucionário se prepara e contribui para ela.

A inevitabilidade histórica das revoluções não advém de um qualquer «determinismo histórico», mas simplesmente do que Paul Lafargue designa por «determinismo económico», que decorre, aliás, de todo o pensamento de Karl Marx. A globalização financeira avassalou o mundo, mas não consegue responder à crise galopante do capitalismo. Crise de tal forma profunda, que praticamente não tem pontos de recuperação por mais imaginação que os seus cientistas económicos e sociais se desfaçam em criatividades várias. O capitalismo é incapaz de resolver as suas contradições.

A economia política capitalista, elevada à categoria de ciência, esconde as suas contradições. Já Engels, a este propósito, advertia que «a constituição da economia política é […] um sistema perfeito da aldrabice institucionalizada, uma ciência completa de enriquecimento que veio substituir o negócio simples, não científico».

A finança apropriou‑se do poder dos Estados, assalariando ou capturando os decisores políticos saídos do voto popular, já de si condicionado pela inextricável malha ideológica que a burguesia foi tecendo, a ponto de tornar virtuoso o que naturalmente é intolerável ou mesmo crime: fuga aos impostos institucionalizada nos off shore, agências de notação a dirigir a economia com total desprezo pelo poder político colocando em perigo o estado de direito democrático burguês que não pode governar nem enfrentar a banca. É a ditadura dos mercados trasvestida de democracia global.

Estes democratões, que acumulam biliões, aparecem regularmente na montra da Forbes, queixando‑se do aumento da pobreza, enquanto acumulam riqueza, não desistindo, no entanto, de ser humanitários, generosos e altruístas. Talvez aquele velhote japonês que vivia voluntariamente há 20 anos em «estado natural», e que foi recentemente descoberto por uma equipa de documentaristas, tivesse razão quando disse que o mal do mundo é a religião e o dinheiro. Terá sido por essa razão que o Governo o obrigou a regressar à poluição geral da sociedade capitalista…

O capitalismo cabe inteiro na definição de Karl Marx: «O capital vem ao mundo conspurcado da cabeça aos pés e sangrando por todos os poros […]. Tudo o que é realmente humano se torna congelado, ou cristalizado numa força material impessoal, enquanto os objectos inanimados ganham uma vida ameaçadora e vigorosa.»

É por isso que, para Marx, a ética é a medida de toda a sua visão do socialismo. Ao contrário do que muitos marxistas defendem, Marx nunca defendeu a ideia de um socialismo de matriz científica. A sua investigação orientou‑se, isso sim, para encontrar as bases científicas para o socialismo como resultado do movimento social no sentido de alcançar para o «homem» a entrada «no ciclo infinito da natureza tendo como ideal de perfeição a realização da sua totalidade humana, impossível no capitalismo».

Nos nossos dias, as organizações internacionais, nomeadamente a ONU, dançam ao ritmo das decisões dos grandes poderes mundiais, dos Estados imperialistas, o mesmo é dizer da finança global. Entretanto vai‑se navegando de start up em start up, certamente a caminho dos milhões de empreendedores criativos. Não é uma alegria? A cavalo dos avanços da ciência para garantir mais crescimento a seguir ao crescimento, numa vertigem tresloucada, não vá o «menino acordar», esquecendo‑se que, juntando as duas metáforas da cotovia, a de Harper Lee e a de António Nobre, o menino vai acordando…

Irão as start ups e equivalentes, na renovada ideologia «científica» do capital, trazer‑nos distribuição em vez de crescimento? Respeito pela natureza no lugar da sua depredação? Respeito pela humanidade em vez de campos de concentração e massacres anunciados? Equilíbrio ecológico em vez de combustíveis fósseis? Moinhos ao vento em vez de chaminés fumegantes? Painéis solares em vez de átomos à toa? Liberdade e paz em vez de guerra? A realidade que nos confronta diz‑nos que não. Diz‑nos que só se vai até onde der lucro e que, se der lucro, o limite é o apocalipse. Diz‑nos que é preciso que a cotovia não se cale.

A luta contra o capital e o imperialismo é uma luta titânica. O poder potencial da massa é realizado na luta concreta em defesa dos seus interesses materiais imediatos que, curiosamente, só serão satisfeitos se associados à compreensão das suas causas mais profundas e à decisão permanente e informada de lhes pôr fim. Assim, um partido revolucionário tem de trazer para dentro do debate mais amplo e geral propostas sistémicas de alternativa.

Donde nascem essas respostas? Do conhecimento empírico da realidade informado pelas aquisições da ciência, da prática, do que a história nos ensina e, the last but not the least, da vontade profunda de mudança, o «mudar de vida» do Zé Mário Branco, dando o salto para o «mudar a vida». Tudo sem perder a antevisão de um mundo melhor, a utopia. Por isso, para Marx, a «utopia e a revolução são as duas coordenadas históricas do movimento operário, os dois modos de intuição do pensamento socialista: a utopia é a dimensão do espaço; a revolução é a dimensão do tempo. Assim, o movimento socialista deve pensar‑se como utopia e como revolução, uma inseparável da outra». Dito de outra forma, sempre com Marx, a filosofia é a consciência da revolução e o proletariado o seu coração.

Para o triunfo final das teses estabelecidas no «Manifesto Comunista», Karl Marx, citado por Engels, contava única e exclusivamente com o desenvolvimento intelectual da classe operária como resultante necessária da acção unificada e da discussão; mas Marx sempre foi um exagerado…

Karl Marx (1818-1883)

A chave da revolução é a massa a que pertence o proletariado cada vez mais vasto, mais massa, portanto, e cada vez mais esclarecido e conhecedor a ponto de deter nas suas mãos (agora, bem mais do que nas suas mãos, no seu pensamento) os instrumentos materiais do poder do capital; portanto, também, para liquidação desse poder: a ciência, a investigação fundamental, o desenvolvimento da robótica, da inteligência artificial, da biologia molecular, a física quântica.

Cinquenta anos depois do Maio de 68, a universidade tem de voltar a ser um poderoso alfobre da luta pela democracia, pela liberdade, pelos direitos humanos, logo contra o capital. Libertar a universidade e o saber, impedindo que sejam propriedade das empresas, do capital ou ao serviço do Estado é uma questão crucial para a luta revolucionária. É a partir da universidade que os objectos inanimados ganham «vida». A robótica vai substituir em larguíssima escala o que foi actividade humana exclusiva decorrente da consciência, inteligência, capacidade de escolha e decisão ainda que dependentes, na sua construção, na sua criação, da iniciativa e do saber humanos. A automação irá tender para a autonomização e «humanização» dos «objectos» construídos. HAL 9000 (Odisseia no Espaço, Kubrick) já não é apenas ficção científica, é a realidade da inteligência artificial.

As revoluções quântica, biomolecular e informática desencadeadas no século xx provocaram um terramoto sem precedentes nas capacidades da humanidade para conhecer, utilizar e manipular os segredos mais íntimos da matéria, da vida e da mente.

Como consequência, o «reducionismo», ou seja, o necessário aprofundamento em detrimento da amplitude, dá lugar à sinergia. O novo imperativo de interacção simbiótica entre as várias ciências, mais a imbricação global do conhecimento científico será condição sine qua non para o desenvolvimento do saber e para a sua aplicação prática. Ou seja, nas condições actuais, para consolidar e reforçar o poder do capital (neoliberalismo, globalização, etc.).

A globalização deixará de ser apenas uma consequência do funcionamento da economia capitalista/imperialista na fase actual do neoliberalismo, mas uma imposição do desenvolvimento das revoluções científicas. O capital tenta superar a sua crise global através do domínio exclusivo das ciências e tecnologias mais avançadas e pela capacidade, já praticamente sem limites, de as colocar ao seu serviço afirmando, nomeadamente que o desenvolvimento tecnológico sem limites será a salvação da catástrofe que ele próprio cria! Mas o desenvolvimento tecnológico, «para além do progresso das ciências naturais, leva à regressão social, é destrutivo e coloca na primeira linha a técnica da guerra e sua preparação pela imprensa [comunicação social]» (Walter Benjamim), que, ao mesmo tempo, a mostra como espectáculo.

Hoje, os confrontos entre as potências pelo domínio geoestratégico e das fontes de matérias‑primas são feitos longe das suas fronteiras usando os outros povos e Estados satélites e dependentes como cobaias e carne para canhão.

Todavia, o futuro vai exigir um comando único total. Os grandes negócios hoje são à escala global e a finança já não conhece limites de espaço ou de tempo. A revolução técnico‑científica que levará a uma exploração geral dos recursos do planeta e sua gestão coordenada globalmente vai exigir um poder planetário unificado.

Ou esse poder será radicalmente democrático com o domínio da inteligência artificial e suas derivadas pelos cidadãos e cidadãs que impuseram um outro modo de produção em que o trabalho alienado se transformará em actividade lúdica e artística, portanto o socialismo, ou teremos um leviatã real, um fascismo científico. Estamos perante uma alteração sistémica dos termos e condições em que irá desenvolver‑se a luta de classes.

O estado a que chegou a entropia do sistema capitalista, da sociedade burguesa, e apesar dos avanços vertiginosos da ciência sempre ao serviço do capital, mesmo quando deles as massas, o proletariado e os povos, também beneficiem – ironicamente podemos chamar‑lhes danos colaterais –, é praticamente equivalente ao estado a que está chegando a entropia do planeta.

Se não temos um contador entrópico que trave a vertigem da imundície, a única resposta é a generosa liquidação do capitalismo no seu estertor assassino para podermos garantir a salvação do planeta, melhor dizendo da humanidade que o habita e que, por enquanto, ainda não tem meios nem condições para se fazer à galáxia. E, se tivesse, já sabemos quem ia ficar por cá.

A superação necessária do actual deslizar para o abismo e para o agravamento sem paralelo da situação das massas trabalhadoras passa pela revolução contra o sistema capitalista. Sabemos, como dizia Nancy Fraser, que esta «não depende apenas das lutas entre trabalho e capital no momento da produção, mas também das lutas sobre os limites da dominação de género, da ecologia, do imperialismo e da democracia, sendo igualmente importante esta última agora aparecer sob outra luz – como lutas no, ao redor do e, em alguns casos, contra o próprio capitalismo. Se elas se compreenderem nestes termos, estas lutas podem de facto cooperar entre si ou unir‑se».

O movimento eco-socialista, levará fatalmente ao fim da propriedade privada dos meios de produção

Temos como ideia‑guia o aprofundamento e radicalização da democracia, encostando o Estado de Direito Democrático burguês à sua própria alegoria de Estado que cuida de todos, fora da luta de classes. No desenvolvimento da luta radical de massas devemos guiar‑nos pela premissa de que o clímax da democracia no capitalismo é a insurreição.

O imperialismo não percebeu que, como referia Jorge Beinstein, «a decadência global do sistema abria as portas a um sujeito inesperado: a insurreição global do século xxi; o tempo (a marcha da crise) joga a seu favor. O império e seus aliados directos e indirectos quiseram faze‑la abortar, começando por tentar apagar a sua dimensão universal, tratando mediaticamente de transforma‑la (fragmenta‑la) em uma modesta colecção de resíduos locais sem futuro, mas essas supostas resistências residuais possuem uma vitalidade surpreendente, se reproduzem, sobrevivem a todas as tentativas de extermínio e quando visionamos o percurso futuro do declínio civilizacional em curso, a profunda degradação do mundo burguês, o seu caminhar ara a barbárie antecipando crimes ainda maiores, então a globalização da insurreição popular aparece como o caminho mais seguro para a emancipação das maiorias submergidas, o que é também a sua única possibilidade de sobrevivência dign

Porém, é absolutamente necessário ultrapassarmos o conceito presente no “marxismo tradicional” da história como um contínuo em que as rupturas se enraízam. De que maneira um partido revolucionário se prepara para a insurreição, isto é, para a revolução, durante o desesperante tempo infinito em que as condições para que ela aconteça se conjurem, as massas saltem os muros e encham as ruas como já vão fazendo, os cães de guarda se desmoralizem e os donos disto tudo percebam que já não são donos de nada e apenas lhes resta comerem‑se uns aos outros.

A revolução é um processo de enfrentamentos com a violência e a brutalidade do estado de direito do capital, de períodos de movimentações populares massivas e de desobediência civil (Thoreau), de superações sucessivas do domínio da burguesia que passará muito provavelmente pela imposição de um Estado forçado a ser complacente com o movimento popular, no qual a política do proletariado ganha posições dominantes nos diversos sectores da sociedade, em que a articulação solidária dos trabalhadores a nível internacional se impõe ao poder e às manobras das grandes multinacionais e transnacionais, em que os instrumentos jurídicos e repressivos dos Estados são paralisados.

O objectivo final da revolução será a ultrapassagem ou, mesmo, liquidação, dos factores que sustentam a economia política enquanto controlo também ideológico e expressão única dos interesses do capital; contudo, o poder só será revolucionário se pertencer às massas expressando‑se pela mais ampla democracia directa complementada por uma representação decorrente e consentânea com a decisão expressa por aquela. Porém, será necessário ultrapassar o conceito presente no “marxismo tradicional” da história como um contínuo em que as rupturas permanecem enraizadas no status com que rompem. A transitoriedade e a dinâmica históricas, neste caso, implicarão a superação do proletariado mas também do tempo e do trabalho enquanto formas de dominação do capital.

O movimento socialista ou, melhor, eco-socialista, levará fatalmente ao fim da propriedade privada dos meios de produção. Mas Marx deixou bem claro que, se a abolição geral da propriedade privada for feita apenas politicamente, os revolucionários virão a ficar surpreendidos perante a sua fatal reversão.

O proletariado (a história já condenou a apropriação pelo «partido» das suas tarefas), enquanto factor decisivo para a orientação do movimento revolucionário, contribui para a organização popular independente que levará finalmente ao fim da política enquanto imposição da administração das pessoas, passando para a administração das coisas pelo colectivo da sociedade livre da divisão do trabalho se não mesmo do próprio trabalho «como fenómeno histórico próprio do capitalismo» (Moishe Postone).

Ao longo do espinhoso percurso, os factores essenciais que definem o objectivo – «liberdade de escolher e decidir», democracia de massas, abolição da hierarquia pela inversão da «pirâmide» da decisão, generalização e aprofundamento da discussão e do conhecimento – deverão, obrigatoriamente, estar integrados na essência dos meios utilizados para o alcançar. Os fins nunca justificam os meios; são os meios que asseguram a genuinidade dos fins. Um partido, para estar preparado para a revolução, tem obrigatoriamente de entender e pôr em prática esta singela observação dialéctica.

 

  • Referências:

         Maximilian Rubel, Karl Marx, Pages choisies

         Engels, Esquisse d’une critique de l’économie politique.

        Karl Marx, O Capital (edição resumida dos três livros por Julian Borchardt).

        Michio Kaku, Visões.

        Moishe Postone, Marx Reloaded; Marx est-il devenu muet?; temps,travaille et domination social.

  • Artigo inserido no “ABC do Socialismo”,  edição CULTRA
  • Fotos no corpo do texto:
    • primeira foto . saigneurdeguerre on VisualHunt
    • segunda foto : VisualHunt

 

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