A responsabilidade de Portugal nas alterações climáticas, a queima de resíduos verdes e as emissões de CO2

Introdução

Devido às alterações climáticas somos responsáveis por reduzir rapidamente as emissões de gases que provocam o aquecimento global por efeito de estufa, sob pena do seu agravamento irreversível.

Na nossa comunidade a análise das medidas a tomar têm-se concentrado na redução das emissões originadas pelos transportes e pela produção de energia elétrica nas centrais térmicas.

No entanto, as emissões provocadas pelos incêndios e pelas queimadas de sobrantes da agricultura e da floresta em Portugal, representam uma fracção muito elevada do total e num ano péssimo de incêndios, como o de 2017, as emissões combinadas destas fontes atingiram um valor de 15,1 milhões de toneladas de CO2, semelhante ao valor das emissões nas centrais elétricas ou das provocadas pelos transportes.

É nossa obrigação, enquanto seres humanos conscientes, lutar, em todas as frentes, pela sua eliminação.

Emissões de CO2 segundo a sua origem

(milhões de toneladas de CO2 equivalentes)

Valor médio incêndios1,9
Incêndios no ano de 20179,3
Biomassa sobrantes da agricultura3,8
Biomassa floresta (sobrantes corte+matos coberto)1,9
Total Biomassa5,8
Emissões CO2 transportes17,0
Emissões CO2 energia elétrica fóssil13,9

No que se refere às emissões dos transportes é fundamental o investimento na melhoria muito forte da qualidade dos transportes públicos, aumentando a sua qualidade quer na frequência e duração dos percursos quer na comodidade para as pessoas transportadas e no preço dos transportes (passes). Nas centrais térmicas, acabar com as centrais a carvão e a sua substituição por energias renováveis.

Destas emissões de CO2, as provocadas pela queima dos resíduos verdes sobrantes da agricultura, apesar de serem muito superiores ao das provenientes da biomassa da floresta, são normalmente esquecidas e assumidas como “inevitáveis”.

A sua eliminação, caso politicamente todos os responsáveis se empenhem, é possível desde que os resíduos verdes sejam colectados e triturados na fonte, ou bastante próximo desta e enviados para queima em pequenas centrais de produção de energia elétrica de forma a substituir a queima de combustíveis fósseis.

Uma estratégia que teria o maior sentido seria que, a nível das Associação Nacional de Municípios, sob proposta da Assembleia da República, os municípios portugueses se empenhassem na aquisição de meios mecânicos de recolha e de trituração e que o Estado construísse centrais de queima de biomassa descentralizadas nas principais regiões agrícolas, de acordo com o potencial de produção de resíduos verdes.

As emissões de CO2 originadas nos resíduos da agricultura

Os resíduos da agricultura são provenientes das podas, nomeadamente de videiras, do olival, das pereiras e macieiras e em geral das restantes árvores de fruto, assim como das palhas sobrantes dos cereais, caules de milho e de girassol e sobrantes dos tomateiros e beterrabas.

Assim, os resíduos provenientes das podas representam um total de 1 185 984 toneladas anuais ao qual corresponde uma energia térmica de 9 883 257 MWh/ano e os resíduos das culturas anuais num total de 1 324 000 ton/ano podem produzir um total de 5 387 025 MWh/ano.

É de notar que as palhas provenientes dos cereais são normalmente utilizadas na alimentação animal, mas mesmo assim há queimadas muito significativas destes sobrantes da agricultura.

Do ponto de vista do potencial de produção de energia elétrica, considerando uma eficiência das centrais térmicas de 36%, será possível uma produção total de 5 497 301 MWh/ano, o que corresponde a cerca de 53% da energia elétrica produzida pelas centrais de carvão. As suas emissões anuais de CO2 são equivalentes às emitidas por cerca de 1 milhão e trezentos mil veículos no mesmo período de tempo.

As emissões de CO2 originadas nos resíduos da floresta

Os resíduos da floresta são provenientes dos ramos, das raízes e das folhas rejeitados no corte assim como dos matos do coberto vegetal da floresta. Apenas se consideraram os resíduos das florestas de pinho e eucalipto porque o sobro e azinheira são já objecto de um tipo de exploração sustentável.

Assim, os resíduos provenientes dos cortes representam um total de 653 mil toneladas anuais ao qual corresponde uma energia térmica de 3 834 653 MWh/ano. No que se refere aos matos do coberto vegetal existem estimativas que lhe atribuem um valor semelhante ao dos sobrantes dos cortes.

Sendo a produção destes resíduos gerada na operação de corte, a responsabilidade da sua colheita e envio a destino final deveria ser dos responsáveis pelo corte.

A gestão dos matos no coberto vegetal da floresta deverá ser regulamentada no âmbito de uma gestão sustentável da floresta, de forma a que seja possível a utilização de meios mecânicos de corte e trituração para envio às centrais elétricas de biomassa.

A substituição do carvão nas centrais de produção de eletricidade

As centrais térmicas a carvão de Sines e do Pego são unidades enormes cuja eficiência energética de 36 a 38 % é muito inferior às centrais de ciclo combinado que é de 56 a 57%.  É reconhecido que a queima de carvão é também muito mais poluente que a do gás utilizado nas centrais de ciclo combinado.

É, no entanto, conforme o estudo referido na referência 1, muito importante sublinhar que não é viável a substituição directa do carvão por resíduos de biomassa nas centrais a carvão.

Quando  os responsáveis da central do Pego  se propõem pedinchar aos Estado português para que os contribuintes paguem todas as facilidades para a transformar numa central  a biomassa, o que pretendem é a utilização  de monoculturas de árvores para queima total na central, assim  como  um pacote financeiro com custos brutais para todos nós.

Devemos a máxima atenção para combater estes novos custos directos ou indirectos com benefício injustificável para os donos das centrais.

Mais um negócio para o grande capital e uma origem de novas corrupções em perspectiva!

 

Referências

Referência 1. Disponibilidade de biomassa florestal residual para combustão na central termoeléctrica de Sines. Autora: Filipa Camacho da Silva Pinto e Simas. Objectivo do presente trabalho: Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, para obtenção do grau de mestre em Energia e Bioenergia.

Referência 2.  Estudo de quantificação do total de resíduos agrícolas e vegetais em cada distrito, de cada biomassa proveniente de podaqs, ENGASP, Ibero Massa Florestal, Lda.

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