A nossa pandemia é mais importante que as dos outros!

No dia em que Trump anunciou o seu coronavírus:

O nosso mundo somos nós. Quando estamos doentes e vamos a uma urgência entendemos que devemos ser os primeiros a ser atendidos, porque o nosso mal é sempre o mal mais grave.

Com a atual pandemia passa-se o mesmo. A perceção da importância da pandemia do Covid-19 é muito maior na Europa do que em África, ou na Índia. É muito maior em França do que na Síria. É maior em Israel do que na Palestina. É sentida como uma ameaça maior por Bolsonaro, que faz cinco testes diários, do que pelos brasileiros das favelas, que morrem da tal gripezinha. Do mesmo modo a pandemia é mais importante para qualquer chefe que possa impor o seu poder do que para os seus subordinados. É vista como uma oportunidade pelos multimilionários e seus agentes que se reúnem anualmente no Forum Económico Mundial, em Davos, ou pelos seletos membros do Clube de Bilderberg.

Esta pandemia revelou com crueza que as diferentes perceções dos perigos e das ameaças dependem, não do perigo em si, mas do perigo que cada um, enquanto individuo, sente ameaçar o seu estatuto social, ou que os governos dos Estados sentem que os podem prejudicar ou favorecer. A pandemia é um revelador social e um revelador político.

A abordagem de indivíduos e governos sobre a pandemia desmente a clássica asserção de alguém que afirmava ter-se queixado de não ter sapatos até encontrar quem não tinha pés. A comunicação de massas dos grandes poderes mundiais impõe aos seus destinatários que estes continuem focados nos seus sapatos e não na falta de pés de tantos amputados por minas, por doenças como a lepra, por exemplo.

É justificável que assim seja. O homem não é um bom selvagem, o mal é natural nos humanos, e, no limite, a resposta perante os grandes perigos é sempre: Salve-se quem puder e eu em primeiro lugar! Para um grego comum, a pandemia é uma ameaça grave: o turismo que emprega 15 a 20% da mão-de-obra e gera 10 a 15% da riqueza do país dá trabalho, salário, casa, escola a milhões de gregos que através dessa atividade têm um bom ou razoável nível de vida. Um pouco como em Portugal. Para um refugiado sírio na Ilha de Lesbos, por exemplo, os efeitos da pandemia no turismo grego são um assunto desprezível: Ele/a luta por um copo de água! O mesmo acontece com os italianos e os refugiados vindos de África e que procuram um abrigo na ilha de Lampedusa.

Para os oligarcas brasileiros, americanos, russos, africanos, ou de qualquer parte, a pandemia é um assunto crucial: eles não podem estar doentes e os seus negócios não podem parar. Há que encontrar meios de colocar as “massas” a pagar os seus lucros. Os mais evidentes são a especulação bolsista através das farmacêuticas e das companhias de seguros e a eliminação de custos de mão-de-obra através de velhos e de incapazes para o mercado de trabalho, geradores de despesa (custos).

Aos senhores do mundo interessa fomentar a histeria à volta do Covid-19. Enquanto se fala do Covid-19, fala-se de fait divers à volta da saúde, e não de uma política de saúde e, menos ainda, de justiça social! Fala-se, discutem-se consequências, não se pensa em causas. Não se fala em alterações climáticas, nem na sobrexploração dos recursos do planeta, nem nas prioridades de utilização de bens de uso que levam a considerar mais importante enviar uma nova cápsula com dois humanos ao espaço do que estabelecer um serviço nacional e público de saúde!

Mas, e há sempre um “mas”, a promoção da histeria à volta da pandemia não pode ultrapassar um limite que cause rebeliões das “massas”, como a fome dos sans culottes que estiveram na origem da Revolução Francesa, um limite que ponha em causa as hierarquias de poder. Por isso os condutores do processo agem com os cuidados dos carteiristas e referem sempre a possibilidade da vacina a curto prazo, é por isso que nos dizem que vai tudo correr bem, se as massas se portarem como eles pretendem e continuarem a aceitar as regras do jogo que causou a pandemia! É neste “mas” que se encontram os dirigentes do mundo “financeirizado”, na gestão de uma crise sem questionar os seus fundamentos. Eles e os seus porta-vozes na comunicação social continuarão a prometer umas sandálias aos descalços e não de amputados.

O vírus mais agressivo e insidioso que nos ataca é o da manipulação deliberada.

 

Original no “Correio do Ribatejo”

Deixe um comentário