Natal: A luz e o fogo

Herdou o Natal cristão a temporalidade mítica do “Mirraram”, festividade invernal dedicada a Mitra entre os Persas que, no calendário romano, se celebrava a 25 de Dezembro.

Na Igreja do Oriente, por seu turno, ir-se-á impor a data de 6 de Janeiro; em que se celebrava o nascimento/renascimento de Osíris. Mais tarde, a mesma há de ser adotada, igualmente, no Ocidente; onde se tornará o nosso “dia de Reis”.

Também a grande festa solsticial germana do Jul irá impregnar o Natal cristão de um simbolismo muito próprio em que proliferam as práticas vegetativas, hídricas e flamejantes.

Aliás, as festas do nascimento do Sol são, no hemisfério norte, naturalmente realizadas em Dezembro e intimamente relacionadas com a data solsticial. Entre os Esquimós é celebrado a 22 de Dezembro; dia em que o Sol se torna visível e termina, assim, um longo Inverno de noite e de frio. Por isso, eles saúdam o renascimento do Sol, paradigma da luz e da vida, com danças e cantos apropriados. Também a festa do nascimento de Krisna é celebrada na Índia em fins de Dezembro e, igualmente, de acordo com a matriz solsticial. O próprio 25 de Dezembro era, em Tiro, durante a Antiguidade, o dia da comemoração do despertar de Melqarth; o Hércules fenício.

A absorção sincrética dos diversos natais ditos pagãos (nomeadamente o de Mitra; Deus solar e guerreiro, cujo culto rivalizou, nos últimos séculos do Império romano pelo estatuto de religião oficial), é tão evidente que o próprio Justino “O Mártir” virá a admitir que os “cristãos usurparam o dia do Sol”!

E com o Sol vêm os simbolismos solares, em que o fogo desempenha papel crucial. E com o fogo, os “cepos” ou os “madeiros do Natal”, as rodas incendiadas, os “lumes novos”, a lareira e o azeite dos fritos natalícios. Vêm igualmente os tempos solsticiais marcados pelos instantes críticos do pôr-do-sol, da meia-noite, … da alvorada!

Pois o fogo, na simbologia arquétipa tradicional, surge como fator de esconjuro que nos livra dos espíritos causadores de doenças e pestes, perigos e fracassos. O fogo combate as trevas, trazendo, à semelhança do Sol, a luz. Mostra e torna visíveis e habituais as coisas; logo combate o mal que se esconde nas trevas e representa o desconhecido.

Na verdade, o Solstício de Inverno, aliando o carácter primevo do nascimento do Sol com o nascimento do Deus cristão, faz do Natal uma das épocas do ano mais propícias à perpetuação dos ancestrais “lumes novos”, que a Páscoa vai adotar com o ritual do círio pascal; reanimação do fogo sagrado que há de durar todo um novo ano.

Aceso cerimonialmente em tempos antigos para estimular ou consagrar a flamejante energia catalisada pelo solstício, irá resistir a todas as formas de perseguição e rejeição, reconverter sentidos ancestrais e, aproveitando identificações seculares e funcionalismos perenes, chegar até aos nossos dias.

Na noite de 24 de Junho acendiam-se então, festivamente, os grandes madeiros, roubados ritualmente e trazidos pelos rapazes casadouros como prova de força e ritual de passagem, batendo-se-lhes depois, como era usual, com grandes varapaus para os mesmos atearem.

Nalgumas zonas do país, tal costume foi transplantado para 31 de Dezembro acompanhando, assim, a cronologia cristã do Ano Novo.

De uma maneira geral estas fogueiras eram acesas nos largos das aldeias e vilas, bem como nos adros de igrejas e capelas. Revestiam, um carácter de atividade comunitária; espaço de participação de novos e velhos, que aí se mantinham em alegre convívio, até o dia raiar.

De facto, a grande fogueira pública ao ar livre, constituía a grande festa de expressão coletiva e aldeã. Acesa mais ou menos cerimonialmente na noite de Natal, era mantida ateada até aos Reis ou, pelo menos, até ao dia de Ano Novo.

Cada um destes doze dias correspondendo a um dos meses do ano que se iniciava e, para o qual, se esperava a manutenção fertilizante do Sol que a “fogueira” simbolizava.

Tudo leva a crer que este período começou por corresponder aos doze dias anteriores ao solstício. Com o processo de cristianização, este ajustou-se a igual período de tempo anterior ao Natal, onde aliás ainda se mantêm nalgumas práticas relacionadas com os ”arremedos”. É por isso que o décimo segundo dia anterior ao Natal, dia de Santa Luzia é, ainda, nalgumas zonas do País, como Miranda do Douro, considerado o início do período natalício.

Contudo a consubstanciação do ciclo litúrgico do Natal entre o 25 de Dezembro e o 6 de Janeiro (dia de Reis) terá feito transitar, para aí, a maioria das práticas e temporalidades propiciatórias mais visíveis.

Num exercício de síntese, poder-se-á dizer, então, que o padrão usual neste tipo de manifestações e costumes flamejantes se pode equacionar da seguinte forma: grandes troncos, roubados quase sempre, que o rapazio vai obter e transportar numa simbiose de força e expediente.

Fogueira comunitária representando o lugar, o bairro ou a rua, onde toda a noite de Natal se permanecia. Aí se saltava, cantava e dançava, comia e bebia, mantendo-se nisto até ao alvorecer e interrompendo-se apenas o tempo necessário para assistir à “missa do galo”.

Aí, na assim denominada “fogueira do galo”, se esperava por esta onde, no contexto subversivo próprio destes tempos de transição (a meia noite marca, afinal, o tempo preciso de inflexão solsticial), continuavam as brincadeiras, barulhos e desatinos; constituindo tais atitudes (que o álcool fomentava) persistente tradição secular.

Não constituíam, porém, tais costumes estritas atividades lúdicas (embora seja esse, hoje em dia, o seu sentido predominante), mas estão ainda imbuídas de um autêntico sentido mágico, em que a componente amorosa, purificadora e fertilizadora, muitas vezes até erótica, estava sempre presente.

E as hierofanias solares do fogo não se expressavam apenas através das tradicionais fogueiras, fossem elas comunitárias, de bairro ou familiares. Por toda a Europa realizavam-se diversos cerimoniais que, grosso modo, podemos denominar de “procissões luminosas”.

Cortejos de fogo atravessavam campos e desciam montes; pretendendo fomentar de fertilidade uma natureza adormecida, mas potenciada de vida.

Para tal iluminavam-se com “fachos” e tochas, ruas, largos e centros de aldeias, onde muitas vezes se colocava um mastro ou árvore enfeitada, se assavam chouriços e galináceos, que previamente se tinham roubado (de forma mais ou menos ritual) e se bebia em grande profusão.

Aí, à semelhança da noite de São João, plasmada também ela das valências próprias dos solstícios (mas, aqui, estivais), se queimavam “personagens” que representavam o “ano velho”: em que máscaras ou indumentárias serviam de simulacro niilista e de que encontramos resquícios, no período natalício, nos “velhos” e “chocalheiros”, “caretos” e “carochos” do nordeste trasmontano e, pelo São João, nos “bonecos”, “matrafonas” e afins que, aqui e ali, ainda hoje são festivamente queimados; pendurados nos pinheiros ou carvalhos que marcam o centro das festividades.

No nosso país, deviam as pessoas conservar-se acordadas até à meia-noite da, também chamada “noite da consoada” e “comer então de maneira farta”, pois o dia que findava era, por solidariedade solsticial, de rigoroso jejum!

Noutras zonas, considerava-se “ser bom” manter-se acordado toda a noite e assistir ao nascer o Sol que é, acredita-se, nessa manhã particularmente prodigioso.

Para isso (para iluminar e enfeitar de luz) se usava muitas vezes o azeite que em imaginativos recipientes, conchas, vidros ou cascas de caracóis, pontilhavam de fogo os largos de aldeias e cidades onde ardia a também chamada (como tudo nessa noite) “fogueira do galo”; do galo anunciador do sol; arauto de um tempo em que este, regenerado, iniciava um novo ciclo, um novo começo, um novo nascimento.

E assim se mantinham, a pé, numa noite inundada de fogo e luz, expulsando-se deste modo as trevas inquietantes da maior (ou vista como tal) noite do ano.

Inquietante, por se tratar de um tempo aberto; em que afluíam os mortos e as temerosas criaturas do caos. E em que o Sol atingia o seu maior declínio e, o seu (re)nascimento (avatar do nascimento das divindades solares), era ainda uma incógnita.

A vulgarização da luz elétrica, virá a permitir superiores permanências, abrangências e disposições, ligando largos e ruas por múltiplos cordões luminosos, dando corpo a configurações artísticas cada vez mais elaboradas. O que levou aos atuais “enfeites de Natal”, transformados em autênticos atracões lúdicas e turísticas.

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