A ideia ignorante das “duas faces da mesma moeda”

Dizer que a extrema-esquerda é a outra face da moeda da extrema-direita é um absurdo histórico, sem qualquer valor científico. Equivale em história a dizer que a terra é plana – é parte da irazão, anti iluminista que grassa (e a que os media não são imunes).

Ora, o facto histórico é que não se conhece um elemento de extrema-direita que tenha morrido pela democracia e são aos milhões os que na extrema-esquerda morreram a defender direitos democráticos. Milhões. Por isso pede-se alguma contenção, bom senso nas afirmações.

Há regimes de esquerda que degeneraram em contra revoluções ditatoriais, como na Rússia de Estaline (e por isso devem ser combatidos, na minha opinião, e foram pela Oposição de Esquerda, que morreu a lutar contra Estaline). As ideias de esquerda eram e são as ideias civilizadas da defesa da liberdade, da igualdade e da solidariedade.

As ideias de extrema-direita não degeneraram. Ninguém se enganou naqueles partidos – elas são à partida degeneradas, brutais, violentas, desagregadoras, não raro apoiam-se por isso em milícias (onde aliás o nome fascismo vai buscar – ao Fasci Italiani di Combattimento, milícias italianas especializadas, como as SA de Hitler, em matar líderes de extrema-esquerda ou esquerda: comunistas, trotskistas, anarquistas, grevistas, católicos progressistas, sindicalistas, etc). Foram eles os primeiros a entrar como prisioneiros em campos de concentração. Tenham, por isso, um pouco de decoro quando fazem afirmações absurdas. São gente em grande medida marcada pela coragem, humanismo, dedicação, abnegação – fascistas são monstros.

Todos os direitos fundamentais que hoje vigoram nas democracias liberais, a começar pelo direito ao voto, mas também o de livre associação, reunião, liberdade de imprensa, foram conquistados nos séculos XIX e XX por aquilo que hoje é denominado a extrema-esquerda, ou seja, sectores revolucionários auto organizados que se opuseram à ordem estabelecida: cartismo, sindicalismo revolucionário, social democracia alemã do XIX, bolchevismo, e tantas outras correntes de gente abnegada, que deram a vida por ideias de liberdade e igualdade.

Qualquer regime político pode degenerar em ditadura. E isso serve para os de direita, de esquerda e de centro, os de ontem e os de hoje. Todo o cuidado é pouco – por isso fui sempre contra qualquer supressão de direitos, seja em pandemia, ataque nuclear ou guerra. Hitler foi nomeado chanceler através de eleições, “porque havia uma crise económica devastadora que pedia mão pesada”. Estaline subiu ao poder em nome do comunismo, depois de ter massacrado comunistas, “porque a Rússia estava destruída”. Várias democracias robustas e amplas em direitos mantiveram nas colónias regimes facínoras, pensamos na Argélia francesa, “porque aqueles povos eram atrasados”. Os traços bonapartistas vêm rapidamente ao de cima nas nossas democracias assim que há greves que afectam a produção, por exemplo – nunca houve requisição civil de hospitais, em pandemia, mas houve contra enfermeiros em greve fora da pandemia.

Qualquer regime político tem que ser criticamente vigiado, escrutinado, e, para ser realmente democrático, tem que partir de baixo para cima e ter mandatos revogáveis. O meu lema pessoal é nunca confiar, nem nos “meus”. A esquerda não está imune a apoiar ditaduras, infelizmente. Nem a apoiar limitações de direitos – há muita gente de esquerda que quando é o seu governo aceita limitar direitos. Isso é lamentável.

Mas comparar as ideias de extrema-esquerda com a extrema-direita é uma ofensa aos que nos deram quase tudo o que de melhor existe hoje, e que só foi conseguido depois de derrotados os regimes fascistas, e que na Europa custou 80 milhões de mortos. 80 milhões, repito. Pelo que além dizer “são duas faces da mesma moeda” não é só ignorante, é uma ofensa à memória. Dizia o filósofo Walter Benjamin, marxista que se suicidou na fronteira com França depois de lutar contra o nazismo, que no capitalismo nem os mortos estão a salvo. É quando a memória se transforma em amnésia colectiva.

Steve Banon (antes de ser preso) deu uma entrevista, creio que ao Expresso, onde dizia que as ideias de extrema-direita iam crescer porque não há extrema-esquerda para ocupar esse lugar. Dizia-o feliz, bonacheirão. Alegrou-se com a ausência de uma esquerda, porque sabe, melhor do que ninguém, que a culpa do crescimento da extrema-direita é a demissão da esquerda em ter políticas realmente de esquerda. Não há alternativa ao centro que não seja a extrema-direita, que cresce nesse vazio, regozijou-se o “pai teórico” de Trump e do Chega.

Comparar o nazismo à resistência ao nazismo é um delírio, é uma ideologia criada pelo centro político, e o seu neoliberalismo económico, para justificar perante milhões de seres humanos o seu colapso moral em 2008 – quando tiverem que se socorrer do Estados que diziam rejeitar, para salvar os seus bancos, criando uma onda de miséria mundial e retrocesso nas classes médias. É a ideia do mal menor, do virtuoso centro entre dois extremos.

A ideia ignorante das “duas faces da mesma moeda” cumpre hoje um papel evidente: legitimar o neoliberalismo. Depois de 2008 nada lhes sobra a não ser a ignorância histórica. Hoje o que os partidos do centro na Europa têm a oferecer aos seus cidadãos, antes ou depois da pandemia? Uma longa travessia no deserto de mais sacrifícios, desemprego com automação, e um futuro negro de retrocesso social para os filhos das classes médias, e os pais já reformados, além do já evidente colapso do pequeno empresariado/empreendedores (mesmo antes da pandemia).

Salvar os mortos é uma forma de proteger os vivos – conhecer a história, era o alerta de Benjamin, é fundamental para preparar o futuro.

2 comentários em “A ideia ignorante das “duas faces da mesma moeda””

  1. Não me parece que resulte de ignorância, a afirmação de que a extrema-esquerda e extrema-direita, sejam duas faces da mesma moeda.
    Porque razão é a direita e o centro-direita que o afirma? Por ignorância?
    Alguém de esquerda faz essa afirmação?
    Não é ignorância não, Raquel! É mesmo por sacanice que os pseudo-social-democratas e os socialistas-por-conveniência, que querem manter os tachos do ‘centrão’ o afirmam (vejam lá se também é por ignorância que PPD e PS se puseram de acordo para as eleições ‘descentralizadas’!).
    Repetir isso vezes sem conta, tem por objectivo inculcar no espírito de quem ouve um sentimento de repúdio pelas posições e propostas sociais defendidas no parlamento e nas ruas pela esquerda, na tentativa de as levar a acreditar que são tão perversas e perigosas como as políticas de extrema-direita!
    É uma atitude pensada, vil e cobarde de dirigentes e políticos do centro-direita, essa de mentir mil vezes até que as pessoas acreditem que as propostas defendidas pela esquerda, exactamente as que são favoráveis ao povo, são tão perigosas, irresponsáveis e criminosas , como as políticas nazis.
    Sabem muito bem o que estão a dizer, conhecem bem as técnicas de como instalar o medo na população, para assim mais facilmente poderem fazer passar os seus interesses de classe e pessoais. Como disse o ministro brasileiro do Meio Ambiente: “…aproveitar a pandemia para fazer passar a boiada!”

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