A greve é um travão para evitar o abismo

Fui prejudicada pela greve dos camionistas. As greves prejudicam. Prejudicam-me mais, porém, os olhos resignados dos trabalhadores a justificarem a pobreza. A tristeza do «vou mais ou menos», «não se pode ser totalmente feliz». A greve, pelo contrário, é um acto de dignidade – a resignação uma doença.

Sofro quando os vejo optarem por comer sempre febras porque não têm dinheiro para peixe fresco e explicam que afinal «peixe não puxa carroça»; ficarem em casa a ver futebol porque o cinema para 4 custa 40 euros com transporte e pipocas e dizerem que afinal «até gostam mais de futebol, mais vale ficarem em casa»; que estão exaustos mas quem «corre por gosto não cansa»; que os filhos não passam a matemática, não têm dinheiro para a explicadora privada, mas «também não é preciso porque o filho nunca teve jeito para os estudos».

O mal do país não é o caos gerado pela greve. É o caos em que vivemos todos os dias, de olhos baixos, ombros caídos, a fingir que com 600, 800 e até 1000 euros se pode viver com dignidade. Não pode. Contra isto a greve é, paradoxalmente, um grito de ordem contra o caos. Um momento de resposta colectiva, cooperativa, contra a brutalidade e a indignidade das condições laborais que são hoje o padrão nacional.

Walter Benjamin, um dos mais famosos intelectuais alemães do pós guerra, dizia que a história tinha que ser travada para evitar o precipício, o desenvolvimento capitalista levava-nos para o abismo. A greve é também isto, um travão para evitar o abismo. Fiquei por isso feliz por ter sido prejudicada. Algo de mim rejubilava naquela interminável fila para os combustíveis – era um cheiro a peixe grelhado no carvão, uma educação encantadora para todos, lazer, um bom filme, encontrei naquela fila uma sensação de recomeço de humanidade numa vida desumanizada.

 

Original publicado na página facebook de Raquel Varela

Edição e título: Via Esquerda

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