25 de abril Transmontano

Estamos num período relativo aos 45 anos das comemorações do 25 de abril e do 1º de maio em liberdade. Eu próprio comemoro os 40 anos da minha chegada a Vila Real, recém-licenciado para ensinar no então Instituto Politécnico de Vila Real, futura Universidade. Vinha de Lisboa, irrequieto, cabelo pelos ombros e estava habituado a exprimir-me com liberdade, até antes do 25 de abril, dado que era dirigente associativo e simpatizante de organizações políticas proibidas no antigo regime.

Como se deve imaginar os primeiros tempos foram recheados de peripécias e aprendi rapidamente que, exprimir-me em liberdade, era coisa que não funcionava bem em terras transmontanas. Vim a saber, embora uns anos depois que o chefe do meu departamento tinha comunicado ao diretor do então Instituto Politécnico, que eu seria um perigoso comunista. O caciquismo na sua máxima expressão, mesmo no ensino superior, num meio dominado pelos retornados e onde era raríssimo encontrar alguém de esquerda.

Vivia-se ainda a fase da ressaca da rede bombista, do assassinato do Padre Max, e amigos que me visitavam vindos de Lisboa, ao entrarem no carro, verificavam sempre se não haveria um embrulho…enfim… com uma prendinha… pronta a detonar.

Obviamente que a mordaça desapareceu e a intolerância a ideias diferentes desvaneceu-se fortemente com a menor influência da Igreja. Não podemos esquecer que o Seminário e Sé de Braga eram o centro da rede bombista e o cónego Melo um dos seus dirigentes. O progresso chegou enfim à região, melhorou a rede viária, nem me quero lembrar das viagens para Lisboa em curvas que começavam em Lamego e só terminavam em Rio Maior, às portas da capital. Seria de esperar que as assimetrias também fossem reduzidas, que os centros urbanos do interior assumissem maior dinamismo, especialmente após a entrada na União Europeia….mas o que sucedeu foi exatamente o contrário. Já nem falo na linha férrea, que eu utlizava geralmente nas minhas viagens para Lisboa, dado que de autocarro eram 8 horas enjoado e um dia para recuperar.

Na verdade, a via férrea foi completamente erradicada de Trás-os-Montes.

Povoações que eu conheci com animação, gente jovem e atividade comercial intensa foram-se esvaziando, os seus centros são agora áreas decadentes, edifícios a esboroarem-se e ruas cheias de gente grisalha. Não, não estou a falar de aldeias nos confins das serras, mas das vilas de maior dimensão. Eu assisti à progressiva desertificação do interior. Lembro-me dos presidentes das câmaras excitados com a construção do IP4 que iria criar mais acessibilidades e atrair gente. Mas vieram até auto-estradas e a verdade é que o movimento tem sido em sentido inverso. Em Lisboa dizem-me que tenho sorte de viver aqui, bons ares, espaço, paisagem, gastronomia de estalo…e eu pergunto; mas se é tão bom viver no interior porque preferem passar diariamente umas horas no carro à beira dum ataque cardíaco diário?

E chegamos à questão fundamental…não há emprego…é isso mesmo…não foram criados empregos, não houve deslocalização de serviços públicos, as auto-estradas foram feitas para as gentes do Porto e Lisboa chegarem mais facilmente a Espanha e à Europa, 93% dos fundos de coesão para o Norte ficam na área metropolitana do Porto. Das raras medidas, nestas largas décadas, inclui-se a criação da UTAD e do IPB.

Quando vim para Vila Real, tinha direito ao pagamento da renda de casa, subsídio de isolamento que correspondia a 1/3 do salário e empréstimo sem juros para mobilar casa. Vieram centenas. Não, não é difícil atrair gente para o interior e é bom viver aqui. Mas os poderes centralistas apenas dão paliativos para esta doença da desertificação humana. E à medida que o interior se esvazia, são menos os eleitores e menor a capacidade de reivindicação política.

O 25 de abril podia ter criado um país mais solidário. Mas todos os governos do Bloco Central e até os políticos transmontanos deslumbrados com o Terreiro do Paço e S. Bento, esquecendo as origens, não criaram emprego no interior. Bem podem vir com as baixas do IMI, IMT, municipalização, etc. Não há emprego, não há discriminação positiva, não há Regiões com autonomia e legitimidade política…então não há gente.

Vamos então todos para o Porto e Lisboa…o problema é que estas cidades são cada vez mais dos estrangeiros com dinheiro. Os residentes, esses agora vão engrossando os dormitórios…

 

Original no site interiordoavesso

Deixe um comentário