Henrique Leal: “Cavaquistão”

Henrique Leal 116

“Foge cão que te fazem barão… para onde se me fazem visconde?”… escrevia Almeida Garrett na primeira metade do século XIX e continua tão atual.

O Presidente da República condecorou no 10 de Junho mais de 40 personalidades das comunidades portuguesas e cidadãos estrangeiros, por ocasião do Dia de Portugal, entre cientistas, políticos, professores e empresários dos ‘quatro cantos’ do mundo.

A lista é extensa e difícil de ajuizar, isto é, não é fácil perceber os critérios, os porquês da inclusão da maior parte daquelas personalidades. Se é consensual a condecoração, a título póstumo, do antigo ministro da Ciência Mariano Gago, se se reconhece que, embora polémico, não é desmesurável a condecoração do ex-ministro Teixeira dos Santos, se aplaudimos o reconhecimento do trabalho do cirurgião António Travassos e do cientista luso-americano Ronald A. de Pinho, há também juízes, empresários, cientistas, militares, artistas, enfim a tal lista extensa e por vezes impenetrável e difícil de descortinar. A quantidade tende para a banalização e consequentemente para a desvalorização: parecem os mesmos do costume, os amigos, os conhecidos, os dos favores a que este presidente cinzento e comprometido já nos habituou.

Uma condecoração da República é sempre, por definição, uma honra para quem serviu a República o melhor que pôde e soube. Na extensa lista que se pode consultar em qualquer jornal e na página da presidência não se presume a natureza de serviço público que tal distinção pressupõe. Mas quem atribui a condecoração pode acrescentar honra à honra que é a condecoração. Se nos parece descabida, injustificada, imerecida, desonrosa até a atribuição de uma parte daqueles pedaços de lata, também nos parece que quem assim distribuiu tais distinções não contribuiu para honrar os laureados, justa ou indecentemente condecorados.

Todavia, não passaria de mais uma trivialidade de um presidente que insiste em não ser presidente de todos os portugueses e essa banalidade deslustrada não seria pretexto para esta crónica.

Entre as quatro dezenas de nomes laureados, surge condecorado com a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique um tal Carlos Gil que é o costureiro da primeira dama, a senhora dona Maria Cavaco Silva.

Eu que sempre pensei, oh como estava enganado, que a Comenda de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique era atribuída a quem tivesse prestado serviços relevantes a Portugal, no país ou no estrangeiro, na cultura portuguesa, na Ciência, na divulgação do conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores e afinal temos um comendador que é grande oficial da tesoura, das agulhas e do ferro de engomar.

Nos comentários às notícias nos idos do 10 de Junho, encontrei um cidadão zangado que perguntava se este esqueleto vaidoso (sic) pensa que tem o direito de vulgarizar grandes personagens da vida pública para condecorar um tal Carlos Gil por fazer os vestidos da senhora dona Maria. Apareceu um outro, bem humorado, que escreveu, o infante jaz mas revoltado.

Em 2015 completaram-se trinta anos sobre um congresso na Figueira da Foz donde Cavaco Silva saiu indigitado para primeiro-ministro. Trinta anos depois de Cavaco, Portugal continua a ser um país pobre e onde se passa fome. Paulatinamente, deliberadamente, vemos o SNS, de já nos orgulhámos, a definhar. Assistimos ao colapso de três bancos, com enormes custos para Portugal e para os portugueses. A justiça continua sem funcionar e na educação já não se consegue descolar um ano letivo a tempo e horas. A distribuição de riqueza é cada vez mais assimétrica e, para sobreviverem, milhares de portugueses continuam a abandonar o país. Parece que o Cavaquistão perdura em todo o seu nefasto e necrófago esplendor.

16 de Junho de 2015

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