25 de Abril: intervenção do Bloco na Assembleia Municipal

25 de Abril 51

Em nome do Bloco de Esquerda, Dália Seixas Rainho, dirigiu-se aos cidadãos e às cidadãs do nosso concelho, na sessão solene da Assembleia Municipal, de comemoração da Revolução de Abril. A sessão teve lugar na manhã de 25 de Abril, nos Paços do Concelho.

Transcrevemos essa intervenção, de seguida e na íntegra .

No seu poema intitulado “As portas que Abril Abriu”, Ary dos Santos escreveu: “De tudo o que Abril abriu, ainda pouco se disse e só faltava agora que este Abril não se cumprisse”.

Muitos dos ideais do 25 de Abril cumpriram-se de facto. O movimento popular que irrompeu após o golpe dos capitães destruiu o regime fascista, a muitos níveis.

Surgiram novas formas de organização e a expressão da vontade popular nos locais de trabalho, nos bairros, nas escolas, nos órgãos locais do Estado e até nas Forças Armadas. Construíram-se serviços públicos, na saúde e na educação. Nacionalizaram-se empresas estratégicas. Acabou a guerra colonial e a censura. Formaram-se partidos políticos e as pessoas puderam votar livremente. As mulheres defenderam activamente os seus direitos e foi reconhecido o direito ao divórcio.

As pessoas da minha geração provaram o gosto da Liberdade. Participaram activamente na construção de um Portugal mais livre, mais democrático. Fruto da Revolução, o país saiu de uma letargia que mantinha o seu povo acorrentado. Vivemos dias que marcaram as nossas vidas para sempre.

Já muito foi dito sobre o 25 de Abril e nunca será demais relembrar aos mais jovens as mudanças que se operaram na sociedade portuguesa após a revolução, mas volvidos tantos anos, ainda há muito por cumprir.

Pior: hoje, muitas conquistas alcançadas estão a ser aniquiladas pelo poder vigente que está a reduzir o povo português à miséria.

É sobejamente conhecido o facto de Portugal ter os salários mais baixos da Europa. No entanto, o Primeiro-Ministro afirma que ainda falta fazer uma reforma: reduzir o custo do trabalho, ou seja, tornar ainda mais pobres os que já sofrem na pele os efeitos de uma política que quer transformar os trabalhadores em escravos. Sim! Escravos! Porque é de facto escravatura aumentar as horas de trabalho, acabar com feriados e reduzir cada vez mais salários e subsídios.

A precariedade, a contínua regressão salarial e o desemprego empurram milhares de portugueses para a emigração, muitos deles jovens qualificados. É uma geração que está a perder-se, ao ritmo de dois em cada hora — como antes de 25 de Abril!

A subserviência à finança internacional está a lançar para o desemprego milhares de homens e mulheres com longa experiência profissional. Hoje, pela extinção dos seus postos de trabalho, não vislumbram sequer a possibilidade de poderem, um dia, regressar ao mundo do trabalho.

Veja-se o que estão a fazer a mais de 30 trabalhadores da Manutenção Militar do Entroncamento, com vidas dedicadas ao trabalho e agora na antecâmara do desemprego, lançados fora, para a chamada “mobilidade”, com pesados cortes nos vencimentos.

Ao mesmo tempo, o governo entrega ou quer entregar aos privados sectores vitais para o país, como a distribuição da água e da electricidade, os correios e agora a própria Manutenção Militar. O governo é um comité de negócios para garantir rendas e lucros aos grandes grupos.

O caso dos transportes, também um sector estratégico, é outro exemplo disso. A privatização dos sectores dos transportes atinge muitos trabalhadores do nosso concelho. O Governo aprovou recentemente o decreto-lei que avança com a privatização da CP-Carga e da EMEF, esta última sedeada no Entroncamento. Estas privatizações colocam em risco postos de trabalho e levarão à precarização de muitas famílias de ferroviários.

Aproveito esta ocasião para saudar os ferroviários e os trabalhadores da Manutenção Militar que têm lutado contra estas políticas e que se têm mobilizado na defesa dos seus postos de trabalho.

Já é notório, no Entroncamento, o aumento da pobreza: basta olhar para o número de famílias que pedem ajuda às Juntas de Freguesia ou às instituições de assistência. Com a venda de empresas como a EMEF e CP-Carga, esse número vai ainda aumentar.

Paulatinamente, o governo tem vindo a desinvestir na economia, na saúde, na educação. Nos serviços públicos, em geral.

Está a pôr o país em saldo e a dizer aos privados: ” venham e comprem”. É o mesmo que dizer aos Portugueses: “não há futuro para o nosso país… a não ser vendê-lo” . E isto para pagar uma dívida externa que sabemos ser impagável.

Em vez de defenderem a reestruturação da dívida externa, os nossos governantes ainda se gabam de antecipar de um ano o exigido no Tratado Orçamental; um Tratado que impõe a continuidade da austeridade — agora sem Tróika. O Tratado Orçamental vai empobrecer ainda mais o país e tem de ser denunciado sem hesitações.

Surpreendentemente, assistimos também ao regresso do conservadorismo mais bafiento. Depois da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, fruto de uma luta de décadas, regressam agora vozes a querer condenar as mulheres a abortos ilegais, por vezes feitos em deploráveis condições sanitárias. Hipocritamente, fazem-no em nome do “direito à vida”. Se for preciso voltaremos a esta luta que é de todos e de todas. Mas que é, muito particularmente, nossa – das mulheres.

Também continuaremos a lutar pela igualdade de género pois não se justifica que ainda haja mulheres a serem discriminadas nos seus locais de trabalho, auferindo salários inferiores aos dos homens mesmo quando desempenham as mesmas tarefas.

Não podemos assistir de braços cruzados ao desmantelar das conquistas de Abril. Não esquecemos todos os que, antes e depois do 25 de Abril, lutaram por um país onde todos tivessem “liberdade a sério”.

A hora é de resistir, em defesa da dignidade de um povo e de um país.

É tempo de garantir que ” Agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!”

Viva o 25 de Abril!

 

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Via Esquerda é um órgão de informação digital do Bloco de Esquerda do Entroncamento, cujo objetivo é abordar a actualidade noticiosa local e nacional com interesse para a população do concelho.

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